quarta-feira, 30 de maio de 2018

Repensando a tradição gaúcha








Recentemente participei do programa Galpão Crioulo trazendo algumas reflexões em forma de música. Uma delas falava sobre a destruição da pampa devido às plantações de eucalipto e áreas de pastagem (link), e outra discorria sobre a cultura gaúcha ser baseada no patriarcado, no mito do centauro e no mito ocidental da macheza (link). Já havia discutido o segundo tema no Gauchismo Líquido algumas vezes, em forma de artigo. O assunto, no entanto, tomou certa proporção midiática com a citação do mesmo por outro texto escrito pela cantora e apresentadora do programa Shana Muller, em abril de 2017 (link), que pedia aos colegas músicos repensarem seus repertórios ao tratarem de forma depreciativa as mulheres em canções. Vale ressaltar aqui que o convite para a minha participação no programa se deu através da sugestão dela.
A partir do convite comecei a pensar o que apresentaria nesta oportunidade e o que me representaria. Se seriam músicas do meu repertório instrumental ou minhas recentes composições. Após muita reflexão e levando em conta o público e a significância de estar naquele lugar, resolvi cantar o que eu mesma havia escrito. Diversas outras vezes já havia participado do programa para acompanhar outros músicos – inclusive, a última participação (anterior a essa) foi em um especial em homenagem a Paixão Côrtes, com ele presente e suas adjetivações sobre mim como “rabequista” (situação que inspirou o texto – Uma rabequista!). Confesso que a posição de instrumentista sem verbalizar começava a me incomodar. Poder trazer as reflexões, estudos e pesquisas em canção, um formato que compacta tão bem as mensagens em poucos minutos, tem sido uma grande descoberta.
Venho escrever sobre esse fato pela relevância reflexiva que considero. Desde que foi ao ar e disponibilizado na internet, ouvi diversos comentários interessantes, diferentes de críticas pesadas que esperava com receio, e que algumas vezes já ouvi por parte dos mais conservadores e que Shana por ocupar o lugar que ocupa, recebeu através de comentários na internet após abordar o tema. Desta vez percebi atenção ao que foi cantado, percebi escuta. Ou seria uma falta de ar para atitudes contrárias? Prefiro acreditar na primeira opção.
             As críticas trazidas nas canções tratam de uma conjuntura cultural. São estruturais e não pessoais. Ao discorrer sobre o mito do gaúcho, como um mito ocidental comum em populações com ligação ao cavalo e ao trabalho agropastoril, problematizo outras significâncias envolvidas em tais entendimentos sociais. Podemos sim, apontar atitudes, comentários e proibições que não colaboram com a igualdade de gênero, mas só repetir fatos isolados nos deixa longe de ir no cerne da questão. Precisamos de fato compreender o que está atrás de toda a construção identitária.
           Nos anos de experiência na música regional e na pesquisa de doutorado onde entrevistei diversos músicos do segmento regional, ficou aparente a ligação com a cultura gaúcha por razão da música, no sentido mais laboral e prático possível: um nicho de mercado onde pudesse haver um retorno financeiro estável e proporcionar o sustento do músico. É pelo amor à música. Nesse montante entram questões ideológicas que muitas vezes são incorporadas na prática musical sem uma profunda reflexão. Afinal, é dessa forma que perpassam as tradições, entendidas como incontestáveis.
              Mexer com algumas destas estruturas, como vemos, pode causar determinados desconfortos, mal estares. Situações antes não vistas pedem de forma inconsciente uma explicação, como algo que nunca fora visto antes que pede definição, ou um outro modo de lidar perante ao novo.  Às vezes causa estranheza levar determinados climas, “pesar rolês”, mas já é hora de quebrar esse silêncio. Ainda creio que seja possível. Ver o movimento liderado e promovido por mulheres na cidade tem servido como alimento nesses tempos críticos. Ver o show da banda Mulamba em Porto Alegre na última sexta no Theatro São Pedro foi um alento ao considerar o tempo que se passou de hegemonia masculina na música quase que total.
            Talvez as coisas se aclarem com o tempo, mesmo que acredite que por si só não irão se transformar. Talvez a sociedade entenda de vez o que é viver em um patriarcado, e como isso fala muito mais sobre poder e política do que sobre biologia. Ou talvez as contradições existentes nessa relação de dominação só dependam de uma observação atenta das manifestações culturais que a sustentam ideologicamente.
               

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Parando para entender sobre o DRT de artista e o registro na Ordem dos Músicos

Colagem: Clarissa Ferreira




Clarissa Ferreira
(violinista/ etnomusicóloga)

Na última semana algumas notícias dos meios de comunicação, e muitos compartilhamentos nas redes sociais, atentaram para a votação que está agendada para o fim do mês e que decidirá pelo fim, ou não, da obrigatoriedade do registro profissional de artista e de músico. Eu fui uma das pessoas que se assustou com a notícia, muito pelo contexto nada propício para os profissionais da arte e da música no momento atual no país. Soou como afronta à classe, uma explícita não valorização de quem faz da arte sua subsistência.

Depois de postar um breve manifesto e ter rapidamente compartilhamentos que demonstravam afoitos pedidos de explicações, fiquei pensando sobre o significado desse registro e o que implicava a extinção de sua obrigatoriedade. Fui pesquisar e encontrei poucos esclarecimentos totais, tive que juntar algumas pecinhas de links em links. Em conversas com pessoas ao redor vi também a ausência de elucidações totais, percebendo muita gravidade nisso. 

Temos a real necessidade de discussão do tema e de luta pela valorização do fazer artístico, mas precisamos nos informar para saber onde e como proceder. Vou tentar aqui esclarecer algumas coisas, a partir do que li e falei com algumas pessoas, dentre elas um advogado músico e uma atriz, e deixo o tema em aberto para mais contribuições. 

Para começar: a lei que regulamenta a profissão artista não é a mesma que regulamenta a profissão músico. A primeira está voltada para profissionais de espetáculos, sendo incluídos atores, técnicos e sonoplastas, e foi uma conquista de 1978, dezoito anos após a regulamentação de músico realizada em 1960. O que as duas leis tem em comum é que nelas ficam postas os direitos do músico e do artista em regulamentações como remuneração por ensaio, horas consecutivas de trabalho, ou seja, direitos que salvaguardariam o músico (link dalei de 1960). Também vale lembrar que dava liberdade policial a quem não estivesse registrado e nem em dia com as mensalidades, permitindo a apreensão de instrumentos e a proibição de apresentar-se.

Quem é músico há um tempinho que seja já deve ter ouvido as histórias de atitudes impositivas e proibitivas da Ordem dos Músicos, tocando o terror, apreendendo instrumentos, não deixando os músicos subirem no palco. Também há relatos que colocam em dúvida a idoneidade da instituição e sua função, a partir de acusações de desvios de verbas arrecadadas em suas mensalidades.

O caso é que desde 2013 está tramitando no Supremo Tribunal Federal a extinção do registro profissional de artista e de músico. São as tão faladas ADPF 293 e ADPF 183, respectivamente, que significam “Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental”, que alegam que a obrigatoriedade é inconstitucional. A Procuradoria Geral da República pede liminar para suspender os artigos 7º e 8º da Lei 6.533/1978 e os artigos 8º a 15; 16, inciso I e parágrafos 1º e 2º; 17 e 18 do Decreto 82.385/1978, sob argumento de que “a manutenção da vigência dos dispositivos impede o livre exercício de um direito fundamental, o que, por si só, configura caso de urgência constitucional”. A procuradoria alega que os dispositivos por ela combatidos violam pontos da Constituição Federal, que “asseguram a livre manifestação do pensamento, a liberdade de expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura, além do livre exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão”. Ou seja, são dois os argumentos principais que tentam justificar a não obrigatoriedade do registro: é afirmado que arte é livre expressão assim como o direito ao exercício de qualquer trabalho, e que as restrições à liberdade profissional somente seriam válidas em relação às “profissões que, de alguma forma, poderiam trazer perigo de dano à coletividade ou prejuízos diretos a direitos de terceiros, sem culpa das vítimas”.

Segundo o manifesto feito recentemente pelos artistas em defesa da obrigatoriedade do registro “a livre manifestação artística não deve ser confundida com o exercício profissional da arte, quando existe uma relação de trabalho”. Para a categoria, colocar ambos os casos no mesmo patamar “colabora para a marginalização de profissionais que exercem a arte como meio de vida, dando tratamento igualitário para situações completamente diversas”.

Percebo claramente uma diferença entre a classe artística dos espetáculos e dos músicos sobre estes temas, por mais que todos tenham-se colocado como iguais neste atual impasse, o que acredito que se deu pelo compartilhamento rápido, a falta de informação e o real medo de quem vem acompanhando direitos dos trabalhadores caírem diariamente. A obrigatoriedade do registro de músico trouxe diversos problemas à classe, por atitudes totalitárias no sentido de proibir a atividade dando poder de polícia sob a atividade musical. Já os atores, técnicos e afins defendem o registro por inúmeros motivos como “reserva de mercado” para pessoas especializadas e estudiosas do ramo, mesmo as de notório saber, que sofrem preconceito social histórico. Vale citar aqui um vídeo que recentemente voltou a circular onde a atriz Bibi Ferreira em 1973 narra sobre o suplício pela aposentadoria de seu pai Procópio Ferreira para provar que era ator.

Em notícias que pude ler através da internet vi que desde pelo menos 2011 já eram realizadas ações por parte de músicos para o descumprimento da obrigatoriedade do registro de músico e de filiação à Ordem dos Músicos do Brasil. Porém, o registro até então não deixaria de existir, o músico que desejaria ter seu registro profissional poderia ainda fazê-lo, através da apresentação de diploma ou de comprovação de conhecimentos através de uma prova. 

Uma dúvida que ainda tenho é qual a razão de ter o registro se ele não é obrigatório para exercer a profissão de músico e se não há uma efetiva vantagem em tê-lo, visto que o retorno por parte dos sindicatos ou da Ordem dos Músicos infelizmente desconhecemos.

Sabemos que estas novas constatações que entrarão em votação fazem parte do combo do desmonte de direitos dos trabalhadores, e que colaboram com a desvalorização e deslegitimação enquanto classe, o que converge com o regime de exceção que vivemos, e que já aconteceu no país há algumas décadas com a perseguição e a censura da classe artística. É muito “coincidente” que no momento de retrocesso político, de avanço da intolerância, do conservadorismo, da censura, se promova esse ataque à classe artística – escrevo ataque pois não há uma escuta ou diálogo que promova uma melhoria de condições de trabalho para os profissionais de arte e música. É muito sintomático e perigoso para a democracia e para o livre pensar, pois cada artista que não consegue seu sustento através da arte é menos um artista no mundo. Precisamos voltar nossa atenção para este tema.


segunda-feira, 26 de março de 2018

Reflexões sobre trabalhar com música hoje





Colagem: Clarissa Ferreira

A música é uma forma de dizer o que pensamos sem nos acharem loucos ou lunáticos. Ouvi essa mensagem, ensinamento ou simples constatação, que represento aqui de forma não literal, do músico Pirisca Grecco ao terminar a entrevista que tive a oportunidade de realizar com ele na última terça feira à tarde. O gravador já estava desligado neste momento, o que faz ter perdido sua composição com as palavras, o seu sotaque ao dizê-las para aqui poder descrever, mas a mensagem chegou e ressoou muito por esses lados. 


Tenho pensado na função do artista, mais especificadamente do músico hoje em nossa sociedade. Além de ser uma reflexão presente e que tem se tornado mais consciente agora, devido ao fato de atuar profissionalmente desde a adolescência, recebendo os primeiros cachês ainda menor de idade, o tempo, a crise e o conhecimento nos colocam mais perto do significado do que realmente fazemos, e do que ensejamos com tal função. Consegui convergir esses meus questionamentos para o meu tema de pesquisa acadêmica, e tenho desenvolvido minha tese de doutorado sobre a construção de identidades profissionais e musicais em músicos que gerenciam sua carreira de forma independente no Rio Grande do Sul, e que possuem ligação com o regionalismo sul rio grandense, tema que já venho pesquisando há alguns anos.


Uma rede de significados postos se deu ao entrevistar Pirisca na passagem de som do show do Aluisio Rockembach no Theatro São Pedro, estreia de seu novo disco intitulado Dona Maria, e no mesmo dia o grupo Instrumental Picumã receber o Prêmio Açorianos, e também há alguns dias me sentir muito realizada ao tocar com Gabriel Romano e Grupo no Festival de Bandas Instrumentais. Em comum nessa teia artistas com contatos musicais ligados a ambientes familiares e a fazeres sonoros a partir do interior do Rio Grande do Sul. Semelhante também a profissionalização destes desde o segmento da música gaúcha regional, nativista e/ou tradicionalista, que passou por fases de ascensão e valorização, criando um mercado antes inexistente no estado, e que até então apresentava grande estabilidade. Tal solidez que hoje se encontra bastante fragmentada por inúmeras razões, como as mudanças no mercado fonográfico que diminuem o poder hegemônico das gravadoras e dos dominantes meios de comunicação, resultando em uma maior liberdade estética e artística dos artistas ao se autogerenciarem.


Repensar e renovar são palavras presentes para as práticas contemporâneas destes músicos, e para quem deseja fazer do som a matéria prima de seu sustento. A luz que clareia uma possível solução vem do resgate a relações mais orgânicas com ouvintes e público. O ideal de artista que o mercado tanto distanciou das “pessoas comuns” com fins de criar fetiches em forma de ídolos, hoje se desnuda. Órfãos de um mentor ou produtor que mostre o caminho, o músico hoje se repensa.


Pirisca comentou estar lendo sobre protagonismo responsável. Tal conceito liga a uma visão humanista de salvaguardar o valor humano, valorizando a autonomia pessoal. Neste contexto criou a “Hora da Música” e o “workxóte” como formas de atuar como mediador e instrutor de seu conhecimento de vinte e cinco anos de carreira. Vale lembrar que o artista possui um clube composto por sócios apoiadores chamado “Clube da Esquila”, que apoia suas produções e de seu grupo “Comparsa Elétrica”. 


Interessante pensar que este conceito humanista foi iniciado no período do Renascimento, que veio após uma fase de trevas no pensamento e de crises das crenças, que de alguma forma podemos relacionar ao período que estamos vivendo. Também me lembra o que o intelectual marxista italiano Antonio Gramsci já abordou sobre o intelectual público e a relação com a formação de uma consciência crítica e com a organização das ações políticas - pensando aqui política como um todo, relacionada a valores, a determinados modos de vida e comportamento. Tal ideia conversa com a função do intelectual ou artista e a sua relação com o mundo real. O crítico dinamarquês Sheikh afirma que há duas ações que são pertencentes ao artista quando visto como intelectual público: o engajamento e a produção. Elas se tornam possíveis por meio de ações de resistência e transformação social, diferentes das ações pautadas pelo capitalismo e da formação da esfera pública burguesa.


Sobre essas novas condições ou possibilidades de trabalho na música, reflito sobre a dificuldade do autogerenciamento, mas também o lado positivo dessa nossa condição. O que creio ser mais valoroso desse novo modo é a não terceirização de algumas etapas, que quando produzidas pelo próprio indivíduo podem falar muito do artista, e das formas que se expressa com as linguagens, sejam elas as artes gráficas de seus cartazes, ou um contato pessoal com o público, sem um agente intervindo nessas relações que são organicamente do artista com o mundo.  Há uma nova condição discursiva sendo colocada a partir dessa autonomia de produção. Vale atentar que o excesso de autogestão pode comprometer a criação, o que nos leva a questionar e colocar na balança: a qualidade do produto artístico X a forma de divulgação como fórmula do sucesso.


No show do Aluisio Rockembach que ocorreu na última semana foi apresentada uma composição sua com letra do poeta Martin César que fala sobre a condição de um músico que toca na rua para poder se sustentar.  É descrita nos versos a história de um profissional que tenta construir carreira longe da sua cidade e finda por tocar por moedas e com pouca atenção nas ruas. Aparte de todo o encantamento desse trabalho que é fazer música na rua, mas esquecendo um pouco a romantização, que também é real, em tal ato, penso: o que estamos fazendo para que as artes sejam realmente valorizadas pelas pessoas? E como resistir se até as expressões artísticas seguem estratégias de mercado como única forma de resistência? Andamos atrás dessas respostas. A arte é a nossa poderosa ferramenta para a reflexão e denúncia, como peças fundamentais dentro da estrutura social. Façamos!



* O álbum “Dona Maria” do compositor Aluisio Rockembach se encontra no Spotify, e a música referida de chama “Un acordeón y un sombrero”

* Pirisca Grecco possui seus trabalhos nos serviços streaming e está nas redes sociais, sempre disponível pelo “atendimento ao comparsa”

* Dia 29 de março estarei com o pessoal na Pedra Redonda no Quintal Bar e Cultura às 21 hrs no evento “Quintal da Pedra Redonda”

* Dia 8 de abril Clarissa Ferreira Quarteto com Lucas Ramos, Neuro Junior e Tamiris Duarte + participações especiais no Café Fon Fon às 20 hrs

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Um F5 no gauchismo: O que você precisa saber sobre a cultura gaúcha antes de comemorar a Revolução Farroupilha





Os envolvimentos de setembro em alusão à Semana Farroupilha inquietam quem já teve a oportunidade de pegar um livro que seja sobre a cultura gaúcha e lê-lo com uma dose ao menos de olhar questionador. Até mesmo os escritos pelos folcloristas Paixão Cortes e Barbosa Lessa deixam claro como a identidade do Rio Grande do Sul foi uma construção, o que fica explícito em seus pontos de vista, seus locais de fala e suas intenções explicitamente declaradas, como por exemplo, a citação sobre as danças tradicionais gaúchas, hoje tão cultuadas nos CTG’s, encontrada na página 12 do livro “Danças e Andanças da Tradição Gaúcha” (1985): “[...] há mais de um quarto de século, ressurgiram como danças tradicionais – ou “projeções folclóricas” – entre jovens pré-universitários de Porto Alegre e que talvez voltem a ser folclóricas, algum dia, quando a massa popular interpretá-las com a mesma espontaneidade e atualidade com que fala ou trabalha, sem a autoconsciência de estar cultuando artisticamente vestígios do passado”.

Sobre essa autoconsciência é o que quero escrever. Décadas se passaram desde a institucionalização do gauchismo, a partir da criação do Movimento Tradicionalista Gaúcho, e inúmeras outras ações políticas do estado para que hoje a questão da identidade rio-grandense seja entendida dessa forma. Posso citar alguns exemplos, como a criação do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore em 1974, pleno auge da ditadura militar, sendo o responsável por financiar, incentivar e promover projetos de incentivo à preservação cultural do Rio Grande do Sul (vale ressaltar aqui a extinção deste órgão pelo atual governo do estado e o desmonte, por esse ato, do grandioso arquivo de mais de 7 mil fonogramas e elevada bibliografia da produção cultural do Rio Grande do Sul, que hoje está distribuído em lugares diversos de forma no mínimo imprudente). Também outra ação para mantimento da cultura gaúcha foi a oficialização da Semana Farroupilha, que deu-se um pouco antes da criação do IGTF, mais especificamente no ano do Golpe Militar (1964).

É interessante pensar como no contexto político da ditadura os regionalismos foram impulsionados, pois eles, simbólica e literalmente, criam exércitos de defensores de fronteiras, fenômeno comum à formação dos estados-nação. Assim, é bem compreensível a exaltação de culturas regionalizadas nestas conjunturas políticas. Tal fato converge com os entendimentos sobre tradição e macheza, presente no gauchismo. Segundo o historiador Hobsbawn (no livro "Tempos Fraturados" de 2013) a constituição de uma cultura alicerçada na masculinidade refere-se a uma fundamentação histórica secular do mito do centauro, que teria influenciado enormemente a cultura ocidental através de “características masculinas, pastoris e que possuem ligação com o cavalo”. Para Hobsbawm “o que eles têm em comum é óbvio: tenacidade, bravura, o uso de armas, a prontidão para infligir ou suportar sofrimento, indisciplina e uma forte dose de barbarismo ou ao menos de falta de verniz, o que gradualmente adquire o status de nobre selvagem. Provavelmente também esse desprezo do homem a cavalo pelo que anda a pé e esse jeito fanfarrão de andar e se vestir que cultiva como sinais de superioridade. Acrescente-se a isso um distinto não intelectualismo, ou mesmo anti-intelectualismo. Tudo isso tem excitado mais de um sofisticado filho da classe média citadina.”

Nem na barbaridade (no sentido de barbárie mesmo) a cultura gaúcha é exclusiva, sendo um traço cultural comum gerado “por um grupo social e economicamente marginalizado de proletários desarraigados” (HOBSBAWN, 2013). Ou seja, para o historiador britânico, os grupos que geram com mais facilidade o mito heroico são as populações especializadas em andar a cavalo, mas que, em certo sentido, ainda se mantêm vinculadas ao resto da sociedade, “ao menos no sentido de que um camponês ou um rapaz da cidade possa imaginar a si mesmo como um caubói, um gaucho ou um cossaco.”

Com esses argumentos fica visível, detrás de toda essa tradição, ares de uma cultura violenta, machista, alicerçada no homem/ branco/ heterossexual/ descendentes de imigrantes europeus, e excludente de tudo que for contra isso, inclusive da mulher, como já falamos por aqui diversas vezes. Com esses alicerces culturais construíram-se elementos de uma cultura que não representa a multiplicidade étnica do estado. Isso inclusive é justificado por Côrtes e Lessa quando afirmam (no livro já citado) que se basearam em suas pesquisas na cultura “da elite”, o que chamam de “grupos sociais superiores” que seriam os que “dispõem de meios mais modernos e mais eficazes de adaptação do ambiente”.  A exploração e/ ou apagamento de culturas “subalternas” é chamada como “influência” das classes mais “evoluídas” sobre as “menos evoluídas”. Também vemos nessas narrativas muita romantização na relação do índio e do negro com o branco, escondendo-se o conflito demarcado em um passado de pesada escravidão no estado, muitas vezes acobertando a própria presença de negros no sul do Brasil.

A lista de segregações é tão grande que até o Movimento Missioneiro surgiu na contra-mão desse discurso hegemônico dos CTG’s, alegando uma identidade diversa desta representação assumida pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho, buscando incluir a cultura indígena nas representações do novo movimento que criou. Porém, o Movimento Missioneiro também recebe críticas por deixar de lado a cultura afro-brasileira em suas simbolizações como pesquisou Rodrigo Miguel de Souza em “Missioneiros, Morenos e Negros: Identidades, Representações e InvisibilidadeNa Região Das Missões, RS” (2013). Ou seja, esse é um campo de disputas simbólicas acirradas, então acho que vale a pena ao menos pensar sobre isso tudo e criarmos uma “autoconsciência” sobre os fatos culturais.

Os ideais relacionados à cultura gaúcha muitas vezes evocam a violência, através do passado de guerras, e ideais separatistas como os movimentos que ressurgiram nos últimos anos. Como entendimento de bravura ou coragem brotam características sociais conservadoras e intolerantes às diferenças. Um campo simbólico onde isso é fortemente notável é a música, onde percebe-se a presença de algumas letras machistas (questão que já tratamos aqui), proibições quanto a ritmos, instrumentos e inúmeras regras de vestimenta em determinados eventos, além de gestuais agressivos e impostações vocais impositivas perceptíveis na performance musical, ou seja, questões estéticas ordenadas para pensarmos em outra oportunidade.

A partir desses entendimentos cristalizados de forma negativa sobre tradição gaúcha brotam argumentos para atitudes homofóbicas, machistas, violentas, que veem razão e alicerce nesse entendimento que normatiza formas de socializar impositivas e restritivas. Vale lembrar o incêndio no Centro de Tradições Gaúchas em Livramento quanto nele ia acontecer um casamento gay em setembro de 2014. Hipocrisia ou simples não aceitação da realidade, visto que os próprios CTG’s estão repletos de homossexuais que literalmente bancam o movimento com suas mensalidades à esta associação civil, o que reflete como os costumes, hábitos e entendimentos são mutáveis.

Como dinâmica que é a cultura, ela se renova e se reinventa. Os elementos identitários passaram por um filtro nas últimas décadas por artistas e intelectuais. Indivíduos condensaram os entendimentos cristalizados desse imaginário construído e representativo, repleto de apelo emocional, exposto em códigos sonoros, imagéticas, espaços, climas e temperaturas. Vitor Ramil, Renato Borghetti e Yamandu Costa são alguns destes personagens, que transpuseram os significados culturais do Rio Grande do Sul a um fino filtro, abrindo mão das características ideológicas excludentes. Atualmente somos uma geração que viveu as décadas de um gauchismo entranhado nas mídias, que aprendeu a história contada pela ótica dos vencedores e dominadores. Mas também somos contemporâneos de quem (re)produziu o gauchismo sob um outro paradigma, tanto intelectual quanto artístico.

Impossível ver o gauchismo da mesma forma quando se conhece o movimento litorâneo e sua atuação nos festivais nativistas. Uma explícita cobrança por legitimidade quanto a identidade do Rio Grande do Sul, que foi claramente demonstrada em pesquisas como a da etnomusicóloga Luciana Prass com o maçambique de Osório (Maçambiques,Quicumbis e Ensaios de Promessa (2009)). Também impossível ficar inerte às composições que surgem dessas reflexões nos próprios festivais nativistas como, por exemplo, os versos de “Parentes da África” de Cao Guimarães interpretada pela Loma no festival Moenda da Canção.

Como não ver o gauchismo de outra forma depois de ter conhecido a obra de Bebeto Alves e suas ressignificações sobre a milonga, que diga-se de passagem é um gênero de disputas simbólicas intensas. Uma breve contextualização: o ritmo ressurge na região platina nas décadas de 1960/ 70 como símbolo do movimento “nova canção” diretamente ligada à canção de protesto e de uma união entre América Latina, mas poucas décadas depois é usada como discurso de pureza e legitimidade aqui no Rio Grande do Sul, questão que Bebeto sempre problematizou e rebateu em sua obra.

A academia também está repleta de trabalhos que desconstroem o discurso hegemônico do gauchismo. De Luís Augusto Fischer a Juremir Machado, passando por Tau Golin e chegando as novas gerações como Lucaz Panitz, (pesquisador que inspirou o documentário Alinha fria do horizonte (2012), que fala das conexões entre artistas do Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai), ao João Vicente e suas pesquisas em comunicação sobre a música popular gaúcha e suas atualizações e acompanhamentos do blog Pampurbana.

Impossível sair com a mesma imagem estereotipada do Rio Grande do Sul após assistir os documentários feitos pelo Projeto Gema. Com uma qualidade admirável reconstroem as narrativas sobre as identidades marginalizadas no estado como a indígena e suas cosmovisões de mundo e música, a identidade sonoro-musical das bandinhas alemãs, sambistas e o movimento samba rock tão resistente no Rio Grande do Sul e reconhecido nacionalmente, os maçambiques de Osório já citados, a hibridização na musicalidade do guitarrista Bonitinho, os gaúchos negros no interior de Livramento, no Quilombo do Ibicuí, entre outras identidades.

Como não descontruir o que é o “gauchismo tradicional” vendo a obra de Vitor Ramil e a forma que dialoga com a singeleza dos versos de João da Cunha Vargas? Como não compreender a significância de nossa localização geográfica e cultural após ler a “Estética do Frio” (1997) defendida por Ramil? Como não perceber a ressignificação do gauchismo vendo a obra de artistas como Pirisca Grecco (e sua Comparsa Elétrica), os versos do Cabo Deco e do Pedro Ribas, entre outros, que com legitimidade e sabedoria sobre o campo, advindo do convívio direto com a cultura gauchesca, atualizam de forma criativa, subjetiva e até existencialista estas identidades?

Como não ver mudança em tudo que foi construído sobre o gauchismo vendo o protagonismo de uma mulher neste segmento como cantora, apresentadora e empresária que é a Shana Muller, uma das poucas artistas a levar a música regional gaúcha ao espaço do espetáculo e da “alta cultura” que é o Theatro São Pedro? Também como não perceber a mudança através da presença de musicistas cantoras e instrumentistas nos ambientes de música regional gaúcha e do surgimento de bandas gauchescas formadas só por mulheres, que apesar de algumas ainda reiterarem os estereótipos construídos em seus repertórios, hoje dividem espaços e funções profissionais neste nicho de mercado que é o gauchismo?

Como não problematizar visões conservadoras sobre a cultura gaúcha vendo artistas como Paulinho Goulart (e seus colegas de grupo Instrumental Picumã), Gabriel Romano, Zelito Ramos e tantos outros que tiveram um forte contato desde cedo com a tradição gaúcha dos CTG’s, seja pelo contato familiar ou por ligações profissionais, e que através dessa vivência construíram a linguagem, sotaques musicais e fraseados, mas que hoje expõem suas múltiplas influências em suas composições, através da realização de trabalhos independentes sem a necessidade de aprovação ou avaliação estética das gravadoras?

A lista felizmente é bem grande e precisa ser apontada. Então deixo o convite para mostrarmos o que de renovado a cultura gaúcha tem (os convido a elencar novos nomes ao compartilhar o texto ou nos comentários). Fica também a dica de dar um google nos nomes e trabalhos aqui citados.

Por um processo de destilação (termo surgido em conversa com o pesquisador Lucaz Panitz) passou a cultura gauchesca. Filtro da pós modernidade e de todas as epistemologias desconstruidoras e relativizadoras da tradição como algo incontestável e sem “autoconsciência”. Nas palavras de Hobsbawn “as tradições são inventadas”, então que possamos tecer uma cultura menos excludente e mais plural, nem que para isso seja necessário reinventá-la.