terça-feira, 18 de abril de 2017

Desculpe o transtorno, mas precisamos falar de Shana Müller

Havia pensado em escrever sobre O Festival da Barranca que aconteceu no último final de semana. Fazer uma reflexão, como um balanço, após um ano de meu manifesto a respeito da proibição de mulheres há 46 anos neste festival de relativa, mas inegável, significância cultural para o regionalismo musical do Rio Grande do Sul, como confirmou o governador Sartori ao sancionar lei no ano passado incluindo o festival no calendário oficial do estado (link aqui)Como esperado, nada mudou por lá. A produção do festival restringe-se às margens do rio que o cerca. Tampouco sabemos de algum retorno efetivo à sociedade, alguma contrapartida ou contribuição ao coletivo que tenha a realização deste evento.

Porém, o grito proferido há um ano ainda retumba, envolto entre compreensões e discordâncias, que alimentam o debate sobre gênero e música no Rio Grande do Sul. Há alguns dias fui surpreendida com a repercussão de um texto meu publicado aqui neste blog em 2014 “Nem chinoca, nem flor, nem morocha” (link aqui), por ter sido citado pela cantora, jornalista e apresentadora Shana Müller em sua coluna Posteiras no sábado dia 8 de abril (link aqui). O texto aborda a temática machismo e música gaúcha, a partir da análise da representação de mulheres em letras de canções gaúchas.

Shana Müller Foto: Alexandre Teixeira


Através de sua posição midiática, ligada à rede RBS, rede de comunicação esta que sempre proferiu o discurso hegemônico do gauchismo, sua fala tomou proporções consideráveis dentro do ambiente tradicionalista e nativista, o que proferi ser um ato revolucionário por vir de uma representante, insider deste movimento.

É importante refletirmos sobre o local de fala de Shana, a fim de compreender a amálgama de significados desta colocação e o que sua persona representa. Shana fala de um local de grande representatividade, devido a sua longa trajetória como cantora no tradicionalismo/ nativismo, e por sua carreira como radialista e apresentadora, estando atualmente no programa Galpão Crioulo, do qual faz parte desde 2012, programa bastante representativo da cultura gauchesca na televisão, no ar desde 1982.

É importante termos em mente que os produtos culturais, como a música e a televisão, agem de forma dinâmica e ativa na construção e consolidação de identidades e da estabilidade social. A televisão se torna um dos principais locais através dos quais a cultura circula e é produzida. Pesquisas mostram que 95% dos brasileiros possuem televisão. Ou seja, torna-se não apenas o local em que se articulam poderes e interesses econômicos, mas também assume papel cultural quando se torna fonte do imaginário social e negocia a representação de sua identidade.

A chegada de uma mulher à apresentação de um programa baseado na cultura gauchesca, que é alicerçada em representações do masculino, abriu à reflexão sobre as representações do gênero feminino na identidade gauchesca. Isso fica claro ao observarmos os numerosos estudos acadêmicos que surgiram tratando desta questão desde a entrada de Shana no Galpão. Cito e disponibilizo alguns: Mulheres nos especiais Bah!: Identidade gaúcha e representação feminina  de Mariana Henriques e Flavi Filho; Do tradicional à customização: arepresentação feminina no programa televisivo Galpão Crioulo de Cristiane Bortoluzzi, Darciele Menezes, Edir Bisognin, Maria da Graça Lisbôa e Mariana Barros; Comunicação, moda e identidade naconstrução da imagem de Shana Müller: a representação da prenda contemporâneano instagram de Natália Fonseca; Amoda sem fronteiras: do regional para o global de Caroline Staggemeier, Cristiane Bortoluzzi, Mariana Barros e Maria da Graça Lisbôa.

Outra questão que gostaria de levantar diz respeito a mulher como cronista, outro papel que Shana atua há alguns anos. A crônica é uma forma de escrita tradicionalmente masculina, devido à proibição de mulheres a estes postos, como jornalistas e intelectuais. Elas começaram a ocupar estes lugares somente em meados do século XX, e muitas com pseudônimos masculinos. A partir do ingresso neste campo, mulheres ganharam destaque no gênero literário, vide as destacáveis cronistas Clarice Lispector, Cecília Meireles e Raquel de Queiroz, que trouxeram a ótima feminina ao público. Crônicas são associadas à sensibilidade e à subjetividade, características com frequência atribuídas ao sexo feminino.
Shana em suas crônicas faz uso do espaço conquistado atuando como uma interlocutora de seu cotidiano, expondo sua visão e suas vivências como mulher e artista sobre a vida social e cultural que observa. Relacionado a isso reflito: porque uma posição discordante do discurso hegemônico causa tanta incomodação? Tem algo errado em uma mulher reivindicar, (re)clamar que não concorda com a forma que é (re)tratada? Ou essa imposição é tão grande que até isso cala? A fala de uma mulher só é respeitada desde que aceite o papel social que lhe foi atribuído?

Há muito o que pensar, e muito que ler nessas entrelinhas. Ao pesquisar Shana Müller no Google, podemos nos deparar com várias sugestões de busca, que nos levam a pensar sobre todas as significações de ser uma artista/ comunicadora mulher em um ambiente tradicional alicerçado na cultura patriarcal. Ao digitar Shana Müller nos deparamos com: “Shana Müller casamento”, “Shana Müller sem maquiagem” e até mesmo “Shana Muller decote”, questões que são colocadas acima de sua função primordial como cantora e apresentadora, e sim levantadas questões relacionadas a seu gênero, a sua imagem e à sujeição feminina ao casamento.

Shana em seu texto estimula os colegas artistas a repensar seus repertórios. Todos nós sabemos que estamos passando por um momento de grandes transformações culturais. Debates sobre identidades, gênero, sexualidade e direitos humanos vem crescendo e consciências sendo construídas. Um exemplo desse possível repensar aconteceu há poucos meses e foi demonstrado pelo rapper paulista Criolo, que reviu um verso de sua canção, por compreender que possuía conteúdo transfóbico. (link aqui)

Em outro texto comentei como são pouquíssimas as mulheres que participam ativamente dentro do movimento musical do regionalismo gaúcho. Já questionei em alguns textos essa pouca presença, assim como a quase não existência de um eu-lírico feminino nas canções gauchescas. A cultura gaúcha, como disse, é baseada em uma sociedade patriarcal, onde o espaço da mulher fica renegado ao segundo plano.

A perspectiva e o sistema de valores “universais” de onde estamos acostumadas a ler o mundo são de caráter androcêntrico (androcentrismo é termo de 1903 cunhado pelo sociólogo americano Lester Ward). Até pouco tempo os homens escreveram a história da humanidade. A exclusão de mulheres está naturalizada. Estamos tão habituados a ver padecê-la que muitas vezes não a julgamos como tal, porque nos tem ensinado a observar através de olhos dos homens, a considerar-nos mães, filhas, noivas, esposas, amantes, quando muito, seguidoras do protagonista.

Não será rápida a eliminação da hegemonia patriarcal consolidada em nossa sociedade, pois a própria mulher sendo inferiorizada, passa a crer nela, possibilitando sua perpetuação social ao transmiti-la aos filhos. Ela se torna agente veiculador de uma ideologia que lhe é nefasta, em função de uma organização econômica da qual não pode prescindir, porque a sustenta. Daí a importância da mulher tomar conhecimento das suas possibilidades e se organizar para vencer esse processo massificante que a sufoca e que não lhe permite ascender de sua posição de servilismo.

Apesar do debate sobre feminismo no Brasil ser muito recente, vemos dar seus primeiros frutos. Devido à argumentação mais efusiva nos últimos anos sobre a questão de gênero, seguidamente nos deparamos com relatos de mulheres que afirmam que após se tornarem mães começaram a pensar neste tema, como pode ter sido o caso da protagonista deste texto, que tornou-se mãe recentemente. Os motivos dessa tomada de consciência são múltiplos e vão desde o isolamento social e político que a maternidade lhe condiciona, as maiores cobranças em relação à mãe do que ao pai, olhares violadores diante do corpo desnudo que amamenta, violências obstétricas e até mesmo conselhos que passam por cima da autonomia sobre o corpo da mulher. Alia-se a isso ao fato de que a sociedade patriarcal impinge a responsabilidade exclusiva das mulheres tanto à maternagem como às atividades domésticas.

O feminismo começa a fazer sentido para muitas, e a partir dessa reflexão vem o pensar sobre a educação dos filhos de uma forma diferente. Isso é revolução. E a revolução será feminista. Ou não será.