terça-feira, 19 de setembro de 2017

Um F5 no gauchismo: O que você precisa saber sobre a cultura gaúcha antes de comemorar a Revolução Farroupilha





Os envolvimentos de setembro em alusão à Semana Farroupilha inquietam quem já teve a oportunidade de pegar um livro que seja sobre a cultura gaúcha e lê-lo com uma dose ao menos de olhar questionador. Até mesmo os escritos pelos folcloristas Paixão Cortes e Barbosa Lessa deixam claro como a identidade do Rio Grande do Sul foi uma construção, o que fica explícito em seus pontos de vista, seus locais de fala e suas intenções explicitamente declaradas, como por exemplo, a citação sobre as danças tradicionais gaúchas, hoje tão cultuadas nos CTG’s, encontrada na página 12 do livro “Danças e Andanças da Tradição Gaúcha” (1985): “[...] há mais de um quarto de século, ressurgiram como danças tradicionais – ou “projeções folclóricas” – entre jovens pré-universitários de Porto Alegre e que talvez voltem a ser folclóricas, algum dia, quando a massa popular interpretá-las com a mesma espontaneidade e atualidade com que fala ou trabalha, sem a autoconsciência de estar cultuando artisticamente vestígios do passado”.

Sobre essa autoconsciência é o que quero escrever. Décadas se passaram desde a institucionalização do gauchismo, a partir da criação do Movimento Tradicionalista Gaúcho, e inúmeras outras ações políticas do estado para que hoje a questão da identidade rio-grandense seja entendida dessa forma. Posso citar alguns exemplos, como a criação do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore em 1974, pleno auge da ditadura militar, sendo o responsável por financiar, incentivar e promover projetos de incentivo à preservação cultural do Rio Grande do Sul (vale ressaltar aqui a extinção deste órgão pelo atual governo do estado e o desmonte, por esse ato, do grandioso arquivo de mais de 7 mil fonogramas e elevada bibliografia da produção cultural do Rio Grande do Sul, que hoje está distribuído em lugares diversos de forma no mínimo imprudente). Também outra ação para mantimento da cultura gaúcha foi a oficialização da Semana Farroupilha, que deu-se um pouco antes da criação do IGTF, mais especificamente no ano do Golpe Militar (1964).

É interessante pensar como no contexto político da ditadura os regionalismos foram impulsionados, pois eles, simbólica e literalmente, criam exércitos de defensores de fronteiras, fenômeno comum à formação dos estados-nação. Assim, é bem compreensível a exaltação de culturas regionalizadas nestas conjunturas políticas. Tal fato converge com os entendimentos sobre tradição e macheza, presente no gauchismo. Segundo o historiador Hobsbawn (no livro "Tempos Fraturados" de 2013) a constituição de uma cultura alicerçada na masculinidade refere-se a uma fundamentação histórica secular do mito do centauro, que teria influenciado enormemente a cultura ocidental através de “características masculinas, pastoris e que possuem ligação com o cavalo”. Para Hobsbawm “o que eles têm em comum é óbvio: tenacidade, bravura, o uso de armas, a prontidão para infligir ou suportar sofrimento, indisciplina e uma forte dose de barbarismo ou ao menos de falta de verniz, o que gradualmente adquire o status de nobre selvagem. Provavelmente também esse desprezo do homem a cavalo pelo que anda a pé e esse jeito fanfarrão de andar e se vestir que cultiva como sinais de superioridade. Acrescente-se a isso um distinto não intelectualismo, ou mesmo anti-intelectualismo. Tudo isso tem excitado mais de um sofisticado filho da classe média citadina.”

Nem na barbaridade (no sentido de barbárie mesmo) a cultura gaúcha é exclusiva, sendo um traço cultural comum gerado “por um grupo social e economicamente marginalizado de proletários desarraigados” (HOBSBAWN, 2013). Ou seja, para o historiador britânico, os grupos que geram com mais facilidade o mito heroico são as populações especializadas em andar a cavalo, mas que, em certo sentido, ainda se mantêm vinculadas ao resto da sociedade, “ao menos no sentido de que um camponês ou um rapaz da cidade possa imaginar a si mesmo como um caubói, um gaucho ou um cossaco.”

Com esses argumentos fica visível, detrás de toda essa tradição, ares de uma cultura violenta, machista, alicerçada no homem/ branco/ heterossexual/ descendentes de imigrantes europeus, e excludente de tudo que for contra isso, inclusive da mulher, como já falamos por aqui diversas vezes. Com esses alicerces culturais construíram-se elementos de uma cultura que não representa a multiplicidade étnica do estado. Isso inclusive é justificado por Côrtes e Lessa quando afirmam (no livro já citado) que se basearam em suas pesquisas na cultura “da elite”, o que chamam de “grupos sociais superiores” que seriam os que “dispõem de meios mais modernos e mais eficazes de adaptação do ambiente”.  A exploração e/ ou apagamento de culturas “subalternas” é chamada como “influência” das classes mais “evoluídas” sobre as “menos evoluídas”. Também vemos nessas narrativas muita romantização na relação do índio e do negro com o branco, escondendo-se o conflito demarcado em um passado de pesada escravidão no estado, muitas vezes acobertando a própria presença de negros no sul do Brasil.

A lista de segregações é tão grande que até o Movimento Missioneiro surgiu na contra-mão desse discurso hegemônico dos CTG’s, alegando uma identidade diversa desta representação assumida pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho, buscando incluir a cultura indígena nas representações do novo movimento que criou. Porém, o Movimento Missioneiro também recebe críticas por deixar de lado a cultura afro-brasileira em suas simbolizações como pesquisou Rodrigo Miguel de Souza em “Missioneiros, Morenos e Negros: Identidades, Representações e InvisibilidadeNa Região Das Missões, RS” (2013). Ou seja, esse é um campo de disputas simbólicas acirradas, então acho que vale a pena ao menos pensar sobre isso tudo e criarmos uma “autoconsciência” sobre os fatos culturais.

Os ideais relacionados à cultura gaúcha muitas vezes evocam a violência, através do passado de guerras, e ideais separatistas como os movimentos que ressurgiram nos últimos anos. Como entendimento de bravura ou coragem brotam características sociais conservadoras e intolerantes às diferenças. Um campo simbólico onde isso é fortemente notável é a música, onde percebe-se a presença de algumas letras machistas (questão que já tratamos aqui), proibições quanto a ritmos, instrumentos e inúmeras regras de vestimenta em determinados eventos, além de gestuais agressivos e impostações vocais impositivas perceptíveis na performance musical, ou seja, questões estéticas ordenadas para pensarmos em outra oportunidade.

A partir desses entendimentos cristalizados de forma negativa sobre tradição gaúcha brotam argumentos para atitudes homofóbicas, machistas, violentas, que veem razão e alicerce nesse entendimento que normatiza formas de socializar impositivas e restritivas. Vale lembrar o incêndio no Centro de Tradições Gaúchas em Livramento quanto nele ia acontecer um casamento gay em setembro de 2014. Hipocrisia ou simples não aceitação da realidade, visto que os próprios CTG’s estão repletos de homossexuais que literalmente bancam o movimento com suas mensalidades à esta associação civil, o que reflete como os costumes, hábitos e entendimentos são mutáveis.

Como dinâmica que é a cultura, ela se renova e se reinventa. Os elementos identitários passaram por um filtro nas últimas décadas por artistas e intelectuais. Indivíduos condensaram os entendimentos cristalizados desse imaginário construído e representativo, repleto de apelo emocional, exposto em códigos sonoros, imagéticas, espaços, climas e temperaturas. Vitor Ramil, Renato Borghetti e Yamandu Costa são alguns destes personagens, que transpuseram os significados culturais do Rio Grande do Sul a um fino filtro, abrindo mão das características ideológicas excludentes. Atualmente somos uma geração que viveu as décadas de um gauchismo entranhado nas mídias, que aprendeu a história contada pela ótica dos vencedores e dominadores. Mas também somos contemporâneos de quem (re)produziu o gauchismo sob um outro paradigma, tanto intelectual quanto artístico.

Impossível ver o gauchismo da mesma forma quando se conhece o movimento litorâneo e sua atuação nos festivais nativistas. Uma explícita cobrança por legitimidade quanto a identidade do Rio Grande do Sul, que foi claramente demonstrada em pesquisas como a da etnomusicóloga Luciana Prass com o maçambique de Osório (Maçambiques,Quicumbis e Ensaios de Promessa (2009)). Também impossível ficar inerte às composições que surgem dessas reflexões nos próprios festivais nativistas como, por exemplo, os versos de “Parentes da África” de Cao Guimarães interpretada pela Loma no festival Moenda da Canção.

Como não ver o gauchismo de outra forma depois de ter conhecido a obra de Bebeto Alves e suas ressignificações sobre a milonga, que diga-se de passagem é um gênero de disputas simbólicas intensas. Uma breve contextualização: o ritmo ressurge na região platina nas décadas de 1960/ 70 como símbolo do movimento “nova canção” diretamente ligada à canção de protesto e de uma união entre América Latina, mas poucas décadas depois é usada como discurso de pureza e legitimidade aqui no Rio Grande do Sul, questão que Bebeto sempre problematizou e rebateu em sua obra.

A academia também está repleta de trabalhos que desconstroem o discurso hegemônico do gauchismo. De Luís Augusto Fischer a Juremir Machado, passando por Tau Golin e chegando as novas gerações como Lucaz Panitz, (pesquisador que inspirou o documentário Alinha fria do horizonte (2012), que fala das conexões entre artistas do Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai), ao João Vicente e suas pesquisas em comunicação sobre a música popular gaúcha e suas atualizações e acompanhamentos do blog Pampurbana.

Impossível sair com a mesma imagem estereotipada do Rio Grande do Sul após assistir os documentários feitos pelo Projeto Gema. Com uma qualidade admirável reconstroem as narrativas sobre as identidades marginalizadas no estado como a indígena e suas cosmovisões de mundo e música, a identidade sonoro-musical das bandinhas alemãs, sambistas e o movimento samba rock tão resistente no Rio Grande do Sul e reconhecido nacionalmente, os maçambiques de Osório já citados, a hibridização na musicalidade do guitarrista Bonitinho, os gaúchos negros no interior de Livramento, no Quilombo do Ibicuí, entre outras identidades.

Como não descontruir o que é o “gauchismo tradicional” vendo a obra de Vitor Ramil e a forma que dialoga com a singeleza dos versos de João da Cunha Vargas? Como não compreender a significância de nossa localização geográfica e cultural após ler a “Estética do Frio” (1997) defendida por Ramil? Como não perceber a ressignificação do gauchismo vendo a obra de artistas como Pirisca Grecco (e sua Comparsa Elétrica), os versos do Cabo Deco e do Pedro Ribas, entre outros, que com legitimidade e sabedoria sobre o campo, advindo do convívio direto com a cultura gauchesca, atualizam de forma criativa, subjetiva e até existencialista estas identidades?

Como não ver mudança em tudo que foi construído sobre o gauchismo vendo o protagonismo de uma mulher neste segmento como cantora, apresentadora e empresária que é a Shana Muller, uma das poucas artistas a levar a música regional gaúcha ao espaço do espetáculo e da “alta cultura” que é o Theatro São Pedro? Também como não perceber a mudança através da presença de musicistas cantoras e instrumentistas nos ambientes de música regional gaúcha e do surgimento de bandas gauchescas formadas só por mulheres, que apesar de algumas ainda reiterarem os estereótipos construídos em seus repertórios, hoje dividem espaços e funções profissionais neste nicho de mercado que é o gauchismo?

Como não problematizar visões conservadoras sobre a cultura gaúcha vendo artistas como Paulinho Goulart (e seus colegas de grupo Instrumental Picumã), Gabriel Romano, Zelito Ramos e tantos outros que tiveram um forte contato desde cedo com a tradição gaúcha dos CTG’s, seja pelo contato familiar ou por ligações profissionais, e que através dessa vivência construíram a linguagem, sotaques musicais e fraseados, mas que hoje expõem suas múltiplas influências em suas composições, através da realização de trabalhos independentes sem a necessidade de aprovação ou avaliação estética das gravadoras?

A lista felizmente é bem grande e precisa ser apontada. Então deixo o convite para mostrarmos o que de renovado a cultura gaúcha tem (os convido a elencar novos nomes ao compartilhar o texto ou nos comentários). Fica também a dica de dar um google nos nomes e trabalhos aqui citados.

Por um processo de destilação (termo surgido em conversa com o pesquisador Lucaz Panitz) passou a cultura gauchesca. Filtro da pós modernidade e de todas as epistemologias desconstruidoras e relativizadoras da tradição como algo incontestável e sem “autoconsciência”. Nas palavras de Hobsbawn “as tradições são inventadas”, então que possamos tecer uma cultura menos excludente e mais plural, nem que para isso seja necessário reinventá-la.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Desculpe o transtorno, mas precisamos falar de Shana Müller

Havia pensado em escrever sobre O Festival da Barranca que aconteceu no último final de semana. Fazer uma reflexão, como um balanço, após um ano de meu manifesto a respeito da proibição de mulheres há 46 anos neste festival de relativa, mas inegável, significância cultural para o regionalismo musical do Rio Grande do Sul, como confirmou o governador Sartori ao sancionar lei no ano passado incluindo o festival no calendário oficial do estado (link aqui)Como esperado, nada mudou por lá. A produção do festival restringe-se às margens do rio que o cerca. Tampouco sabemos de algum retorno efetivo à sociedade, alguma contrapartida ou contribuição ao coletivo que tenha a realização deste evento.

Porém, o grito proferido há um ano ainda retumba, envolto entre compreensões e discordâncias, que alimentam o debate sobre gênero e música no Rio Grande do Sul. Há alguns dias fui surpreendida com a repercussão de um texto meu publicado aqui neste blog em 2014 “Nem chinoca, nem flor, nem morocha” (link aqui), por ter sido citado pela cantora, jornalista e apresentadora Shana Müller em sua coluna Posteiras no sábado dia 8 de abril (link aqui). O texto aborda a temática machismo e música gaúcha, a partir da análise da representação de mulheres em letras de canções gaúchas.

Shana Müller Foto: Alexandre Teixeira


Através de sua posição midiática, ligada à rede RBS, rede de comunicação esta que sempre proferiu o discurso hegemônico do gauchismo, sua fala tomou proporções consideráveis dentro do ambiente tradicionalista e nativista, o que proferi ser um ato revolucionário por vir de uma representante, insider deste movimento.

É importante refletirmos sobre o local de fala de Shana, a fim de compreender a amálgama de significados desta colocação e o que sua persona representa. Shana fala de um local de grande representatividade, devido a sua longa trajetória como cantora no tradicionalismo/ nativismo, e por sua carreira como radialista e apresentadora, estando atualmente no programa Galpão Crioulo, do qual faz parte desde 2012, programa bastante representativo da cultura gauchesca na televisão, no ar desde 1982.

É importante termos em mente que os produtos culturais, como a música e a televisão, agem de forma dinâmica e ativa na construção e consolidação de identidades e da estabilidade social. A televisão se torna um dos principais locais através dos quais a cultura circula e é produzida. Pesquisas mostram que 95% dos brasileiros possuem televisão. Ou seja, torna-se não apenas o local em que se articulam poderes e interesses econômicos, mas também assume papel cultural quando se torna fonte do imaginário social e negocia a representação de sua identidade.

A chegada de uma mulher à apresentação de um programa baseado na cultura gauchesca, que é alicerçada em representações do masculino, abriu à reflexão sobre as representações do gênero feminino na identidade gauchesca. Isso fica claro ao observarmos os numerosos estudos acadêmicos que surgiram tratando desta questão desde a entrada de Shana no Galpão. Cito e disponibilizo alguns: Mulheres nos especiais Bah!: Identidade gaúcha e representação feminina  de Mariana Henriques e Flavi Filho; Do tradicional à customização: arepresentação feminina no programa televisivo Galpão Crioulo de Cristiane Bortoluzzi, Darciele Menezes, Edir Bisognin, Maria da Graça Lisbôa e Mariana Barros; Comunicação, moda e identidade naconstrução da imagem de Shana Müller: a representação da prenda contemporâneano instagram de Natália Fonseca; Amoda sem fronteiras: do regional para o global de Caroline Staggemeier, Cristiane Bortoluzzi, Mariana Barros e Maria da Graça Lisbôa.

Outra questão que gostaria de levantar diz respeito a mulher como cronista, outro papel que Shana atua há alguns anos. A crônica é uma forma de escrita tradicionalmente masculina, devido à proibição de mulheres a estes postos, como jornalistas e intelectuais. Elas começaram a ocupar estes lugares somente em meados do século XX, e muitas com pseudônimos masculinos. A partir do ingresso neste campo, mulheres ganharam destaque no gênero literário, vide as destacáveis cronistas Clarice Lispector, Cecília Meireles e Raquel de Queiroz, que trouxeram a ótima feminina ao público. Crônicas são associadas à sensibilidade e à subjetividade, características com frequência atribuídas ao sexo feminino.
Shana em suas crônicas faz uso do espaço conquistado atuando como uma interlocutora de seu cotidiano, expondo sua visão e suas vivências como mulher e artista sobre a vida social e cultural que observa. Relacionado a isso reflito: porque uma posição discordante do discurso hegemônico causa tanta incomodação? Tem algo errado em uma mulher reivindicar, (re)clamar que não concorda com a forma que é (re)tratada? Ou essa imposição é tão grande que até isso cala? A fala de uma mulher só é respeitada desde que aceite o papel social que lhe foi atribuído?

Há muito o que pensar, e muito que ler nessas entrelinhas. Ao pesquisar Shana Müller no Google, podemos nos deparar com várias sugestões de busca, que nos levam a pensar sobre todas as significações de ser uma artista/ comunicadora mulher em um ambiente tradicional alicerçado na cultura patriarcal. Ao digitar Shana Müller nos deparamos com: “Shana Müller casamento”, “Shana Müller sem maquiagem” e até mesmo “Shana Muller decote”, questões que são colocadas acima de sua função primordial como cantora e apresentadora, e sim levantadas questões relacionadas a seu gênero, a sua imagem e à sujeição feminina ao casamento.

Shana em seu texto estimula os colegas artistas a repensar seus repertórios. Todos nós sabemos que estamos passando por um momento de grandes transformações culturais. Debates sobre identidades, gênero, sexualidade e direitos humanos vem crescendo e consciências sendo construídas. Um exemplo desse possível repensar aconteceu há poucos meses e foi demonstrado pelo rapper paulista Criolo, que reviu um verso de sua canção, por compreender que possuía conteúdo transfóbico. (link aqui)

Em outro texto comentei como são pouquíssimas as mulheres que participam ativamente dentro do movimento musical do regionalismo gaúcho. Já questionei em alguns textos essa pouca presença, assim como a quase não existência de um eu-lírico feminino nas canções gauchescas. A cultura gaúcha, como disse, é baseada em uma sociedade patriarcal, onde o espaço da mulher fica renegado ao segundo plano.

A perspectiva e o sistema de valores “universais” de onde estamos acostumadas a ler o mundo são de caráter androcêntrico (androcentrismo é termo de 1903 cunhado pelo sociólogo americano Lester Ward). Até pouco tempo os homens escreveram a história da humanidade. A exclusão de mulheres está naturalizada. Estamos tão habituados a ver padecê-la que muitas vezes não a julgamos como tal, porque nos tem ensinado a observar através de olhos dos homens, a considerar-nos mães, filhas, noivas, esposas, amantes, quando muito, seguidoras do protagonista.

Não será rápida a eliminação da hegemonia patriarcal consolidada em nossa sociedade, pois a própria mulher sendo inferiorizada, passa a crer nela, possibilitando sua perpetuação social ao transmiti-la aos filhos. Ela se torna agente veiculador de uma ideologia que lhe é nefasta, em função de uma organização econômica da qual não pode prescindir, porque a sustenta. Daí a importância da mulher tomar conhecimento das suas possibilidades e se organizar para vencer esse processo massificante que a sufoca e que não lhe permite ascender de sua posição de servilismo.

Apesar do debate sobre feminismo no Brasil ser muito recente, vemos dar seus primeiros frutos. Devido à argumentação mais efusiva nos últimos anos sobre a questão de gênero, seguidamente nos deparamos com relatos de mulheres que afirmam que após se tornarem mães começaram a pensar neste tema, como pode ter sido o caso da protagonista deste texto, que tornou-se mãe recentemente. Os motivos dessa tomada de consciência são múltiplos e vão desde o isolamento social e político que a maternidade lhe condiciona, as maiores cobranças em relação à mãe do que ao pai, olhares violadores diante do corpo desnudo que amamenta, violências obstétricas e até mesmo conselhos que passam por cima da autonomia sobre o corpo da mulher. Alia-se a isso ao fato de que a sociedade patriarcal impinge a responsabilidade exclusiva das mulheres tanto à maternagem como às atividades domésticas.

O feminismo começa a fazer sentido para muitas, e a partir dessa reflexão vem o pensar sobre a educação dos filhos de uma forma diferente. Isso é revolução. E a revolução será feminista. Ou não será.  

segunda-feira, 10 de abril de 2017

"Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?"


Há um ano atrás conversei com a cantora Shana Muller em um café por cerca de uma hora. Nossos assuntos permearam basicamente o fazer artístico e o que tem de ação política nisto. (Falo aqui política enquanto indivíduo vivendo em coletividade, não política partidária). Discordamos muito, mas nos respeitamos. 

Um ano depois Shana diz que compreendeu alguns pontos de vista que carrego e propago há algum tempo como musicista e pesquisadora sobre o machismo na música gaúcha. Cada um tem um tempo. É difícil sair da teia das construções sociais, e dos entendimentos culturais criados muitas vezes por manipulação e interesse de exploração, seja de gênero ou de classe. Mas ela compreendeu e escreveu. Graças a sua posição está sendo propagado em mídia de grande dimensão.
O texto de Shana é revolução! 
Estudamos, buscamos fontes, dialogamos, buscamos formas de desconstruir pensamentos cristalizados, praticar o pensar, exercitar o refletir, o problematizar das coisas, não apenas aceitar, e ainda em como comunicar nossas descobertas, por isso a criação do blog GAUCHISMO LÍQUIDO. Mesmo assim podemos ser atacados por qualquer pessoa no facebook, como fui hoje pelo intitulado "repórter farroupilha" Giovanni Grizotti, causando comentários desrespeitosos e até mesmo intimidadores, afinal como diria Tom Zé: "Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?" (Senhor Cidadão).
Sei que mexer com bases culturais é muitas vezes conflitante, mas vamos pensar juntos, e mudar, porque assim não tá legal, basta ver as formas que a mulher é (re)tratada na nossa sociedade, nas artes e na vida real.
No ambiente gauchesco ainda estamos "lejos" da igualdade. Toquei por uns dez anos no nativismo e no tradicionalismo, sei do que to falando. Sei que incomoda porque muitas vezes essas atitudes vem de amigos próximos, colegas de trabalho, até de artistas que admiramos!
Sobre o poema "Como fazer o gaúcho", que soou ofensivo a Grizotti, explico: levantei essas mesmas questões diversas vezes com uma escrita acadêmica em meu blog, sobre a construção do mito do gaúcho que diversos pesquisadores já cansaram de falar (Juremir Machado, Tau Golin) mas veja que somente quando experimentei outra forma de linguagem, neste caso a poética, é que consegui tocar em quem talvez devesse ler. Caso não tenha ficado claro, escrevi com tom de humor em alusão ao gaúcho deveras estereotipado que participou do programa Mastercheff, o que só mostra a pausterização da cultura gaúcha e a exploração dessa imagem em rede nacional.
Registro aqui que achei a citação de Grizotti a mim desrespeitosa, nem o conheço, e sugeri que o mesmo compartilhe meu posicionamento como direito de resposta neste tribunal que é o facebook, pela ética e continuidade do bom debate.
Para finalizar, Grizotti usa o argumento de que nas músicas gaúchas as mulheres são chamadas "prendas, morenas e bonitas"e isso não ter problema. Isso só nos mostra que ainda temos muito a conversar...
Não queremos essa objetificação (prenda = adereço, presente do peão), nem esse assédio, não precisamos de sua aceitação, nem de sua "credibilidade". 
Começamos uma era onde a mulher pode falar por si.

Link do texto de Shana Muller:

http://gshow.globo.com/RBS-TV-RS/Galpao-Crioulo/Extras-Galpao-Crioulo/noticia/posteira-nao-sou-china-nem-egua-e-nem-quero-que-o-velho-goste.ghtml

sexta-feira, 17 de março de 2017

como fazer o gaúcho




(inspirado no gaúcho do mastercheff: veja aqui)  

         junte cerca de meia dúzia de ingredientes ufanistas selecionados hierarquicamente:

uma bandeira
uma gaita
uma chula
um mate
uma bombacha
uma faca
um homem

cozinhe todos os ingredientes em manipulação ideológica por algumas décadas
acrescente pitadas de telurismo
uma grande dose de bairrismo
bata até obter uma massa pastichizada
não pare de bater, mesmo quando saturado
unte com galanteios coisificadores
despeje a massa em uma fôrma vazia
decore com um padrão de comportamento teixeirinhístico
polvilhe com um estilo patriarcal
rende: algumas doses de alienação
modelo standart, não orgânico, pausterizado
contém conserva(dores)ntes

quinta-feira, 9 de março de 2017

Ninguém nasce prenda


Ninguém nasce prenda
Eu que me renda
Dessa idiossincrasia de prenda
Contemporânea gueixa gaúcha
Dar-se feito oferenda
Reiteram em mito e lenda
argumentos para que repreenda
numa tapera, casca, casulo
onde o espaço esse limite compreenda
A essência do cair da lágrima
consentem ser matéria prima
terços, costuras, rendas
donas de esperas
tudo que oprima
ingênuo protótipo campesina
livres galopam centauros
deusa Témis cochila
não há atenção que se prenda
(como no olhar da Salamanca pela fenda)
nesse mito ocidentalizado cansado
De um cowboy, um “gaucho” ou um cosaco
Semi bárbaro, anti intelectual
Mais dos mesmos arquétipos
Estilo patriarcal
Os anos (re)inventam verdades
O tempo modifica os cultos
mantêm-se fôrmas culturais de vaidades
antigo dogma oculto
defendido como tradicional
Opressores oprimindo
doma (ir)racional
Simbólicas atrocidades
Inventando adjetividades
Tendo prenda como regalo
suprimento narcísico do peão
Dona de um corpo não seu
sem discussão
Que hoje se narra
dispensa homenagens para sua auto-promoção
interesseira confissão
romântica agressão
harmonizada dominação
simbólica submissão
agressividade em ritualização
trocadilhos de coisificação
Prenda tem voz!
conteúdo que adenda
cerne que acenda
sapiência que não omito
trago e evoco noutro mito
medo masculino antigo
deusa Métis
intuição!
Clarissa Ferreira 
agosto/ 2016