sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Paixão, nosso griot


- Uma rabequista!
Dessa forma saudou-me Paixão Cortes ao sermos apresentados na gravação do programa Galpão Crioulo,  especial em sua homenagem, que irá ao ar neste domingo, 18 de setembro. Apesar do relativo distanciamento que tive como violinista dos conjuntos musicais, acompanhadores de grupos de danças tradicionais gaúchas, não hesitei em participar do registro televisivo, convite feito pelo grupo Brazão do Rio Grande, pela oportunidade que teria de conhecê-lo e ouvi-lo.
Tenho discordâncias sobre o que se tornou o Movimento Tradicionalista e como estancou-se o entendimento de cultura a partir de regulamentações e ementas ditadas em reuniões na década de cinquenta. A cultura gauchesca institucionalizou-se. Adquiriu regras, reuniões diretórias e até carterinha para os membros. Excludente nos espaços físicos, proibitivos à quem não estivesse trajado como nas regras impostas, e também excludente por não representar nesta identidade construída a multietnicidade do estado.
Paixão também demonstrou parte deste descontentamento.  Já expôs o desejo de queimar o manual de danças escrito por ele e Barbosa Lessa, devido ao que se transformou o movimento. Em seu livro intitulado Bailongo expôe o direito do povo à cultura sem ter que “ficar amordaçado aguardando referendo desta ou daquela entidade”, ou ficar “escravo de ‘gauchófilos’ ou preconceituosos ‘exorcistas’ bailarinos”, opinião evidenciada em diversas adjetivações a tais ditadores culturais referindo-os como “palpiteiros da tradição”, “robôs tradicionalistas” e “saltitantes aloprados dançarinos urbanos de palco e salão”.
Neste aspecto, temos similares entendimentos. Semelhantes como a gana em comum que temos em compreender a cultura sul-rio-grandense, porém, com cerca de meio século de diferença. Ele como folclorista, eu como etnomusicóloga. Balizadas diferenças epistemológicas nos entendimentos científicos. Fico imaginando como foram suas incursões pelo estado à cavalo, ônibus, caminhão, como ele relata, acompanhado de Lessa. Problematizo e relativizo minhas inserções a campos etnográficos digitais, por pesquisar a música gaúcha feita e comercializada atualmente. Reconheço o pesquisador sério, refletido em colocações que enaltecem o folclore como ciência, e ao destacar a documentação cuidadosa realizada em suas pesquisas, com o propósito de, segundo ele, “levar ao povo o que é do povo”.
Paixão, acompanhado de Lessa, (re)inventou o gauchismo. Eles perceberam a necessidade desta reconstrução, além das motivações político sociais, ou histórico temporais, como o pós-guerra e o desconforto com o norte-americanismo crescente, juntamente com o Estado Novo  e suas políticas de  proibição de manifestações culturais regionais com o objetivo de construir uma identidade nacional homogênea. Compreenderam que o sentimento de pertencimento é significativo e extremamente poderoso. Captaram a sua importância para a formação de uma coletividade, objetivando assim uma sonhada coesão social, a partir de entendimentos comuns sobre a sociedade entre os mesmos indivíduos. Para isso valorizaram as lembranças, as antigas vivências, aclarando a necessidade que temos de saber de onde viemos, como nos talhamos, e enfim, compreendermos quem hoje somos.
Paixão é griot da cultura gaúcha. Esta denominação, deslocada de culturas da África Ocidental, refere-se ao detentor de conhecimento de um povo, ao guardião da tradição oral. São personagens importantes na estrutura social de um grupo, podendo apresentar-se como caminhantes, cantadores, poetas, contadores de histórias, genealogistas, artistas, comunicadores tradicionais, mediadores políticos da comunidade. Griot é o sangue que circula os saberes e histórias, mitos, lutas e glórias, dando vida à rede de transmissão oral de sua região ou país. Correspondentes características de Paixão e ao que dedicou-se em toda sua trajetória.
      Foi um privilégio conhecê-lo. Naquele estúdio pude sentir e contemplar múltiplos tempos esbarrado-se em olhares de cumplicidade pela irmandade que a cultura traz, criando elos entre pessoas desconhecidas, e unindo em momento singular passado e presente. Nos reunimos ali para ouvir o griot, que graças aos meios de difusão hoje abarcam milhares de pessoas num momento ritualístico pós moderno de coletividade. Dele recebemos ares de gratidão ao ver que ainda hoje suas ideias se propagam.
Pensei no tempo, no envelhecer, nos legados deixados na existência. Paixão fez o que devia ser feito na época acurada para tal. Entretanto, não podemos desprezar que a cultura está em constante transmutação. Penso se hoje não devemos atualizar estes entendimentos para conseguirmos chegar a tão buscada coesão social, para que enfim abarque todos os sul-rio-grandenses em sua representatividade. Este elo de atualização temporal, relativizados com os entendimentos éticos do presente, certamente refletiria em como nos vemos como gaúchos e como os gaúchos são vistos além das fronteiras do estado, pois a imagem que tem-se mundo afora de quem somos é ainda distante da realidade que diariamente vivenciamos.
Desejo que o legado de Paixão seja usufruído como inspiração, não como repetição. Temos muito o que conhecer de nossa história, de nossa identidade ainda jovem e em constante formação. Que consigamos valorizar o que for positivo do que está posto, e construir nosso sentido de pertencimento com os elementos que julgamos nos trazerem significado, provocar sentimento, sentir com a mente, sentir e pensar. Talvez hoje devamos preservar a rede de circulação dos bens culturais trazidos por Paixão com suas constantes atualizações, e encarar o problema da identidade em outros termos, fora da procura de “raízes”. Sabemos que cultura vai muito além do âmbito restrito e restritivo das concepções acadêmicas, ou dos ritos e da liturgia de uma suposta classe artística e intelectual, está em tudo, o tempo todo, principalmente  nos pequenos detalhes, sotaques, gestos, expressões. Os indivíduos não atuam como passivos de uma tradição secular sobre a qual não tem nenhum controle e só se pode preservar. Hoje os indivíduos fazem suas próprias colagens, trazem as referências que julgam pertinentes do gigantesco e multiforme banco de dados da biodiversidade cultural do mundo.

Desta forma, rabequista sim, Seu Paixão! Ainda que violinista, aceito a alcunha deste ser brincante, evocando a leveza trovadoresca dos rabequistas, a mistura e a circulação dos contadores, cantadores, observadores do ontem e do agora, do que se construiu, descobriu, criou, inventou e por tal, também é nosso.