sexta-feira, 22 de abril de 2016

O verdadeiro sangue gaúcho

(crédito: Vherá Poty e Danilo Christidis/divulgação)

(...)
Cunumi...
E este meu país
de brasilidades,
que vive a vaidade,
e não olha pra ti
Cunumi...
E este meu país
Que te deve tanto,
E roube teu canto
E canta por ti... (carnaval)
Cunumi...
Este é o meu país
Que queima tua gente,
Impunimente,
Diante de ti
(Xirú Antunes) 





A população indígena no Rio Grande do Sul, segundo a última pesquisa do IBGE de 2010, é de 32.989, 15% menor do que o censo realizado em 2000 que constava com 38.718 de indígenas no estado. O conhecimento sobre os primeiros habitantes da pampa é fundamental ao falarmos sobre a construção da identidade gaúcha, devido às inúmeras contribuições culturais indígenas referentes à hábitos, conhecimentos, vocabulário, indumentárias e mitos que foram herdados pela cultura regionalista rio grandense.
Pesquisadores gaúchos, liderados pela professora Maria Cátira Bortolini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) analisaram o DNA de indivíduos residentes na pampa e revelaram que mais da metade descende de mães índias, de tribos que sumiram há 200 anos. Interessante que a pesquisa mostra que os indivíduos que forneceram as amostras de DNA desconhecem sua origem indígena, tanto que se auto definem como descendentes de espanhóis ou portugueses, ou simplesmente gaúchos, porque a relação com os índios já está muito distante no tempo.
Na construção social da identidade regional, tanto as contribuições dos indígenas quanto dos negros para a formação da população do Rio Grande do Sul tendem a ser pouco enfatizadas, quando não ignoradas (Leite, 1996; Oliven, 2006). A possibilidade de que, na formação da população gaúcha, tenha ocorrido também miscigenação com indígenas é um tema que recebe pouca atenção não somente em estudos genéticos como também por uma parte significativa da historiografia sobre o Rio Grande do Sul.

(crédito: Vherá Poty e Danilo Christidis/divulgação)

Apesar dessa ênfase limitada na miscigenação física/biológica, às populações indígenas - e aos Charrua em particular - são atribuídas influências na formação da população gaúcha do pampa. Esta é frequentemente conceituada como resultando da fusão do colono europeu com os Charrua, deles tendo herdado atributos culturais, determinadas habilidades e certas características psicológicas. Em particular, tem destaque a habilidade charrua de cavalgar, seu senso de independência e o seu caráter belicoso - alguns dos elementos mais emblemáticos da identidade do gaúcho (Becker, 2002; Oliven, 2006).
Nessas construções sobre a participação indígena, praticamente não são feitas referências aos Guarani e aos Kaingang, que sobreviveram ao processo de colonização e no presente vivem, em sua maioria, em situação de extrema pobreza em diversas regiões do estado. Tal padrão ressoa com uma tendência mais geral no Brasil e na América Latina de glorificar populações indígenas extintas e pouco enfatizar as contribuições daquelas que são contemporâneas (De la Cadena, 2000; Monteiro, 1996). Nessa visão, há uma hierarquia de valores em jogo: a ferocidade, hipermasculinidade e independência atribuída aos Charrua, em particular em relação à sua recusa de se submeter aos invasores europeus, os faz ancestrais "mais dignos e desejáveis" que os Guarani e os Kaingang. No complexo processo de construção identitária, é a "permanência psicológica" dos Charrua na "alma" da população gaúcha que é enfatizada, ao invés da miscigenação física/biológica (Rosa 1957 apud Oliven, 2006, p. 195).
Os indígenas que viviam nas terras onde hoje é o Rio Grande do Sul, antes da chegada dos europeus, pertenciam a três grupos: os Guaranis (também conhecidos como Tape, Arachane e Carijó), os Jê (grupo que os Kaingang fazem parte) e os Pampianos (grupo formado por Charruas e Minuanos). Os Guarani ocupavam o litoral, a parte central até a fronteira com a Argentina, os Jê habitavam parte norte junto a Santa Catarina, e os Pampianos se localizavam ao sul junto do Uruguai.

(crédito: Vherá Poty e Danilo Christidis/divulgação)

Os Guarani foram os grupos que formariam mais tarde os povos missioneiros, catequizados pelos jesuítas espanhóis. Os Jê foram sendo expulsos de suas terras pelos brancos que iam chegando ao território. Muitos de suas aldeias foram simplesmente massacradas. No século XIX, os poucos Jê que sobraram foram obrigados a viver em pequenas reservas. Com a ocupação de suas terras por portugueses e espanhóis, os Pampianos foram obrigados a ir cada vez mais para o interior. A escassez de recursos provocou a fome, e a situação se agravou com as epidemias e as guerras. Muitos deles foram trabalhar nas fazendas dos colonizadores europeus. Os Pampianos que restaram foram massacrados por tropas uruguaias na década de 1830.
Atualmente, as áreas destinadas aos Kaingang estão relativamente demarcadas. No entanto, estas áreas são muito pequenas para o número de índios que nelas habitam. Isso ocorre porque as reservas originais criadas no século XIX, perderam grande parte de sua área devido a invasão de pecuaristas e extrativistas e ao assentamento de colonos. Ainda hoje, os índios disputam suas terras com os agricultores que foram assentados entre as décadas de 1940 a 1960. Além disso, o constante uso do solo acabou o degradando, tornando a produção insuficiente para alimentar as famílias. Tal situação faz com que a maioria dos Kaingang viva na miséria e muitos até passam fome. Os Guarani que atualmente vivem no Rio Grande do Sul são pouco mais de mil, a maioria no litoral. Sua constante migração dificulta a comprovação histórica com as áreas que eles habitavam e a sua demarcação. Por isso muitas famílias de guarani vivem hoje ao longo das rodovias.
Ao contrário de perspectivas ditas realistas o índio no Rio Grande do Sul não se transformou em branco, nem foi totalmente exterminado, mas iniciou uma lenta e contínua recuperação demográfica. Em um contexto nacional em que o desenvolvimento econômico é institucionalmente defendido como a solução para todos os males sociais, se faz necessário refletir sobre a forma como os indígenas são compreendidos na atualidade. A evidente emergência de discursos equivocados, e muitas vezes anti-indigenistas, evidenciado pelo preconceito ou desconhecimento, tem consequência direta na vida destas coletividades, na forma como são tratadas cotidianamente pelas populações não-índias com as quais inevitavelmente convivem e compartilham espaço. O preconceito afeta diretamente as vidas destas coletividades de inúmeras maneiras, já que consciente e inconscientemente estão refletidos nas políticas públicas estatais, além de estarem presentes também nos meios de comunicação, e entre a ampla maioria da população.
Ainda temos muito a conhecer e aprender com esses povos, e sim buscaremos fazer aqui em próximas oportunidades aprofundando esta reflexão. Conhecimentos sobre coletividade e sustentabilidade social e ambiental, especialmente relacionadas às formas de manejo e conservação dos recursos naturais, são algumas das importantíssimas contribuições que devemos descobrir com estas culturas, visto que o cenário global a partir da supervalorização do desenvolvimento econômico dentro dos ideais capitalistas se mostra inadequado e insustentável. Exemplo claro deste fato é a triste realidade do bioma pampa, atualmente ameaçado devido à expansão das monoculturas e das áreas de pastagens (segundo o Ministério do Meio Ambiente no ano de 2008 restava apenas 36,03% da vegetação nativa desse bioma). Sobre o “amor à terra” por tantas vezes cantado, e sobre às exaltações de uma origem indígena quando se é conveniente, é que devemos pensar, agindo de acordo com a lastimável realidade que se mostra e não apenas a construções míticas.