sexta-feira, 15 de abril de 2016

Alucinações Farroupilhas em 2016


     Tão importante quanto as transformações são as permanências e como elas se resignificam no tempo presente. Essa semana abordaremos sobre o Movimento Sangue Farrapo e suas aspirações farroupilhas no mundo contemporâneo. 


Alucinações Farroupilhas em 2016





As artes contemporâneas alcançaram um grau de independência quanto à realidade não artística. Esta visão nos abre um leque de possibilidades sobre a intencionalidade e funcionalidade das obras construídas na música gaúcha, como viemos discutindo.
Diferentes do papel social que a música nativista possuía na época áurea dos festivais (década de 1980), nos dias atuais o segmento de música nativista traz em sua maioria de temas visões “romantizadas” e ligadas a um tempo mítico construído. Para o sociólogo Bauman (1997), as artes partilham da situação da cultura pós-moderna como um todo onde a arte, agora, é uma entre as muitas realidades alternativas e cada realidade tem seu próprio conjunto de procedimentos, táticas abertamente auto-proclamadas para sua afirmação e identificação.

As artes dos nossos dias não se mostram inclinadas a nada que se refira à forma da realidade social. Mais precisamente, elas se elevaram dentro de uma realidade sui generis e de uma realidade auto suficiente nesta. (...) Como Jean Baudrillard o exprimiu, é uma cultura do simulacro, não de representação. (...) É cada vez mais difícil indagar, e mesmo mais difícil decidir qual é o primário e qual é o secundário, qual deve servir como ponto de referência e critério de correção ou adequação para o resto. (p. 129)
        
Por meio da argumentação explicitada por Bauman podemos pensar a realidade gaúcha, para isso não podemos deixar de levar em conta a Revolução Farroupilha (1835-1845) por ser o marco histórico fundador da identidade gauchesca construída e certamente uma das maiores fontes de inspiração da cultura gaúcha. No entanto, são poucos os que problematizam essa guerra civil que ocorreu em uma sociedade não igualitária, salvo a historiografia mais atual sobre o tema. Ao evocá-la com orgulho, os sul-rio-grandenses demonstram sua importância por considerarem-na como o surgimento do sentimento de pertencimento gaúcho, que alicerçada por este fundamento histórico, transmite caráter de verdade. Deste fato histórico, assim como de outras guerras, brotaram os conceitos característicos da figura mítica do gaúcho, como ser bravo, guerreiro, destemido e, principalmente, ligado à sua terra, que virá a refletir tais atributos em sua literatura e em sua música de vertente regionalista.
Contudo, são estes atributos míticos que estão sendo “reciclados” por um
Movimento, aqui no Rio Grande do Sul, chamado Sangue Farrapo. Seu intuito é levantar-se contra a corrupção no país e apoiar o pedido de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff. Em outras palavras, por meio da nossa “herança farroupilha”, esse “sangue que pulsa em nossas veias”, dos “ideais e exemplos farroupilhas” devemos nós, gaúchos, nos levantarmos e dizermos um basta! Nos insurgirmos mais uma vez contra essa exploração! Mas, calma, vamos pensar um pouquinho sobre tudo isso?!
            Para começo de conversa, devemos ter em mente que a Revolução Farroupilha aconteceu no século XIX (1835-1845), dessa maneira, trazer seus ideais para os dias atuais (século XXI) é um tanto anacrônico e confuso. Mas, vejamos em linhas gerais o que foi a Revolução Farroupilha e como esse Movimento Sangue Farrapo dialoga com esses ideais. Segundo a historiadora Maria Medianeira Padoin (2006) tal revolução surgiu como fruto dos interesses econômicos e políticos de uma elite da campanha sul-rio-grandense que, por meio de vínculos e crenças políticas defendia um projeto político que teve no federalismo a sua bandeira. A defesa do federalismo se apresentava, dentre outras coisas, como uma reação ao processo de centralização do Estado brasileiro. Assim, a elite farroupilha formada em sua maioria por grupos de pecuaristas uniu-se contra o centralismo monárquico que, para eles, prejudicava os interesses econômicos e políticos. Mesmo não tenho exatamente os mesmos interesses, estancieiros e charqueadores se sentiam prejudicados pelos impostos e taxas cobradas pelo governo imperial, particularmente depois da Independência do Uruguai. Aqui vemos semelhanças entre um movimento e outro, para começar ambos partem de elites ligadas ao campo. Segundo o jornal Correio do Povo (23/03/2016) o grupo que protestou no feriado de páscoa, montado a cavalo, era formado “por trabalhadores ligados ao campo fazendeiros, agricultores e empresários...”. Ambos, mesmo em tempos históricos diferentes, se sentem prejudicados pelos altos impostos que pagam e, por pagarem (fato enfatizado várias vezes em suas manifestações nas redes sociais) tem direitos de questionar o governo central e, “buscar alternativas” para “mudar” o Brasil.
            No entanto, é um equívoco pensar que toda a elite sul-rio-grandense aderiu a causa farroupilha. Não houve adesão total por parte dos comerciantes, por exemplo, além disso, a maioria dos habitantes urbanos não aderiu a revolta. Dessa forma, de acordo com o historiador Fábio Kühn (2011, p.79) “fica claro que o conflito não foi de aceitação unânime, sendo uma mera construção historiográfica a ideia de que “todos os gaúchos” pegaram em armas contra o Império. Esse discurso político serviu muito mais para legitimar – em diversos momentos históricos – os interesses da elite regional do que qualquer outra coisa. Sob a capa da defesa dos interesses liberais cabe muita coisa, mas na prática, os “farroupilhas” eram tão conservadores quanto a elite central contra a qual lutaram. ”. Isto posto, fica evidente aqui mais uma vez, o uso dessas ideias ilusórias de unanimidade e adesão às ideias farroupilhas retomadas por esse Movimento Sangue Farrapo. Da mesma maneira de muitos momentos históricos, nos dias atuais, tal movimento se utiliza dessas ideias muito mais para defender os interesses de uma elite rural do que qualquer outra coisa. Trazendo mais uma vez uma ideia de que todos os gaúchos estavam do mesmo lado, agora todos devem se unir novamente, “sob esse sangue farrapo”, para defender a nação!
            Essa ideia de defender a nação e ser patriota acima de qualquer interesse também se mostra um paradoxo com os ideais farroupilhas pois, “aceitar a independência da província do Rio Grande do Sul e, assim, o seu caráter separatista significa negar o fato histórico construído e representado como sendo o povo gaúcho exemplo de patriotismo e de glórias, desestruturando a imagem identitária do gaúcho gentílico e mítico diferenciado do gaúcho argentino e uruguaio, ou seja, implica questionar uma história do Brasil criada sobre adjetivo como homogeneidade, uniformidade e pacifismo.” (PADOIN, 2006, p.40).
Enfim, poderíamos elencar uma série de outras coisas, mas o que fica aqui é o seguinte: a Revolução Farroupilha foi uma guerra civil que dividiu o Estado. Ao contrário do que muita gente pensa muitas pessoas não concordavam com as ideias farroupilhas. De acordo com o historiador Moacyr Flores esta foi uma guerra iniciada pelos grandes proprietários rurais, chamados estancieiros. O Império, que já cobrava impostos das propriedades urbanas, decidiu cobrar impostos sobre as propriedades da zona rural. A população de Porto Alegre, por exemplo, foi a favor da taxação dos grandes estancieiros já que os pequenos proprietários rurais da cidade já eram taxados. Por esse ponto de vista, realmente esse Movimento Sangue Farrapo, vindo de organizações rurais de agronegócio e outros setores mais favorecidos, é coerente, de certa forma, com os ideais farroupilhas. Contudo, o que resta nos questionarmos aqui é: queremos outra guerra civil? Pois no rumo em que as coisas estão indo não é de se admirar que venhamos a vivê-la novamente. Por isso, é preciso cuidado e cautela ao exaltar ideais romantizados de nosso passado mítico, pois o mito não é real. E a realidade é bem mais perigosa.