sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Paixão, nosso griot


- Uma rabequista!
Dessa forma saudou-me Paixão Cortes ao sermos apresentados na gravação do programa Galpão Crioulo,  especial em sua homenagem, que irá ao ar neste domingo, 18 de setembro. Apesar do relativo distanciamento que tive como violinista dos conjuntos musicais, acompanhadores de grupos de danças tradicionais gaúchas, não hesitei em participar do registro televisivo, convite feito pelo grupo Brazão do Rio Grande, pela oportunidade que teria de conhecê-lo e ouvi-lo.
Tenho discordâncias sobre o que se tornou o Movimento Tradicionalista e como estancou-se o entendimento de cultura a partir de regulamentações e ementas ditadas em reuniões na década de cinquenta. A cultura gauchesca institucionalizou-se. Adquiriu regras, reuniões diretórias e até carterinha para os membros. Excludente nos espaços físicos, proibitivos à quem não estivesse trajado como nas regras impostas, e também excludente por não representar nesta identidade construída a multietnicidade do estado.
Paixão também demonstrou parte deste descontentamento.  Já expôs o desejo de queimar o manual de danças escrito por ele e Barbosa Lessa, devido ao que se transformou o movimento. Em seu livro intitulado Bailongo expôe o direito do povo à cultura sem ter que “ficar amordaçado aguardando referendo desta ou daquela entidade”, ou ficar “escravo de ‘gauchófilos’ ou preconceituosos ‘exorcistas’ bailarinos”, opinião evidenciada em diversas adjetivações a tais ditadores culturais referindo-os como “palpiteiros da tradição”, “robôs tradicionalistas” e “saltitantes aloprados dançarinos urbanos de palco e salão”.
Neste aspecto, temos similares entendimentos. Semelhantes como a gana em comum que temos em compreender a cultura sul-rio-grandense, porém, com cerca de meio século de diferença. Ele como folclorista, eu como etnomusicóloga. Balizadas diferenças epistemológicas nos entendimentos científicos. Fico imaginando como foram suas incursões pelo estado à cavalo, ônibus, caminhão, como ele relata, acompanhado de Lessa. Problematizo e relativizo minhas inserções a campos etnográficos digitais, por pesquisar a música gaúcha feita e comercializada atualmente. Reconheço o pesquisador sério, refletido em colocações que enaltecem o folclore como ciência, e ao destacar a documentação cuidadosa realizada em suas pesquisas, com o propósito de, segundo ele, “levar ao povo o que é do povo”.
Paixão, acompanhado de Lessa, (re)inventou o gauchismo. Eles perceberam a necessidade desta reconstrução, além das motivações político sociais, ou histórico temporais, como o pós-guerra e o desconforto com o norte-americanismo crescente, juntamente com o Estado Novo  e suas políticas de  proibição de manifestações culturais regionais com o objetivo de construir uma identidade nacional homogênea. Compreenderam que o sentimento de pertencimento é significativo e extremamente poderoso. Captaram a sua importância para a formação de uma coletividade, objetivando assim uma sonhada coesão social, a partir de entendimentos comuns sobre a sociedade entre os mesmos indivíduos. Para isso valorizaram as lembranças, as antigas vivências, aclarando a necessidade que temos de saber de onde viemos, como nos talhamos, e enfim, compreendermos quem hoje somos.
Paixão é griot da cultura gaúcha. Esta denominação, deslocada de culturas da África Ocidental, refere-se ao detentor de conhecimento de um povo, ao guardião da tradição oral. São personagens importantes na estrutura social de um grupo, podendo apresentar-se como caminhantes, cantadores, poetas, contadores de histórias, genealogistas, artistas, comunicadores tradicionais, mediadores políticos da comunidade. Griot é o sangue que circula os saberes e histórias, mitos, lutas e glórias, dando vida à rede de transmissão oral de sua região ou país. Correspondentes características de Paixão e ao que dedicou-se em toda sua trajetória.
      Foi um privilégio conhecê-lo. Naquele estúdio pude sentir e contemplar múltiplos tempos esbarrado-se em olhares de cumplicidade pela irmandade que a cultura traz, criando elos entre pessoas desconhecidas, e unindo em momento singular passado e presente. Nos reunimos ali para ouvir o griot, que graças aos meios de difusão hoje abarcam milhares de pessoas num momento ritualístico pós moderno de coletividade. Dele recebemos ares de gratidão ao ver que ainda hoje suas ideias se propagam.
Pensei no tempo, no envelhecer, nos legados deixados na existência. Paixão fez o que devia ser feito na época acurada para tal. Entretanto, não podemos desprezar que a cultura está em constante transmutação. Penso se hoje não devemos atualizar estes entendimentos para conseguirmos chegar a tão buscada coesão social, para que enfim abarque todos os sul-rio-grandenses em sua representatividade. Este elo de atualização temporal, relativizados com os entendimentos éticos do presente, certamente refletiria em como nos vemos como gaúchos e como os gaúchos são vistos além das fronteiras do estado, pois a imagem que tem-se mundo afora de quem somos é ainda distante da realidade que diariamente vivenciamos.
Desejo que o legado de Paixão seja usufruído como inspiração, não como repetição. Temos muito o que conhecer de nossa história, de nossa identidade ainda jovem e em constante formação. Que consigamos valorizar o que for positivo do que está posto, e construir nosso sentido de pertencimento com os elementos que julgamos nos trazerem significado, provocar sentimento, sentir com a mente, sentir e pensar. Talvez hoje devamos preservar a rede de circulação dos bens culturais trazidos por Paixão com suas constantes atualizações, e encarar o problema da identidade em outros termos, fora da procura de “raízes”. Sabemos que cultura vai muito além do âmbito restrito e restritivo das concepções acadêmicas, ou dos ritos e da liturgia de uma suposta classe artística e intelectual, está em tudo, o tempo todo, principalmente  nos pequenos detalhes, sotaques, gestos, expressões. Os indivíduos não atuam como passivos de uma tradição secular sobre a qual não tem nenhum controle e só se pode preservar. Hoje os indivíduos fazem suas próprias colagens, trazem as referências que julgam pertinentes do gigantesco e multiforme banco de dados da biodiversidade cultural do mundo.

Desta forma, rabequista sim, Seu Paixão! Ainda que violinista, aceito a alcunha deste ser brincante, evocando a leveza trovadoresca dos rabequistas, a mistura e a circulação dos contadores, cantadores, observadores do ontem e do agora, do que se construiu, descobriu, criou, inventou e por tal, também é nosso.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Precisamos falar sobre economia da música!






A indústria da música, juntamente com a de cinema e de televisão, constitui uma parte percentualmente significativa da riqueza gerada pela cultura no Brasil. Segundo dados divulgados pela Internacional Federation of Phonographic Industry, em 2001, o Brasil era responsável por 2% das vendas de produtos fonográficos no mundo, o que totalizou aproximadamente 806 milhões de euros no período.

Por outro lado, levantamentos apontam que o setor da música é um dos potenciais econômicos mais desperdiçados pela inexistência de políticas públicas eficazes relacionadas a esse segmento. Em 2015 a economia da música colocou 580 milhões de reais em circulação (números da Associação Brasileira de Produtores de Discos), com um crescimento de 22,4% no meio digital. Mas a concentração de ganhos segue na mão das gravadoras (que possuem 85% do disco físico e 81% do digital). Mesmo abandonada a uma espécie de subinformalidade, a música acumulou nos últimos dez anos um aumento de mais de 60% de empregos formais. Sem falar nos artistas independentes que por meios próprios, de patrocínios, financiamentos coletivos, editais e/ou outros meios se mantêm sem serem filiados a nenhuma gravadora.

Podemos, a partir desses dados observar que o mercado da música no Brasil se dá de maneira desigual para diferentes artistas. Algumas produções são consideradas mais “populares”, com grande alcance e, muitas vezes, atreladas à gravadoras, ganham grande proporção de público e de circulação. De outro modo, seja por não estarem atrelados à gravadoras ou por se tratarem de segmentos muito específicos (como a música regional, por exemplo) alguns artistas ficam à margem desse mercado. Contudo, alguns órgãos oficiais estão tentando equiparar e dar condições “mais igualitárias” aos diversos artistas e seus segmentos. 

Nesse sentido, o Ministério da Cultura manifestou a sua opinião de que há atualmente pouca diversidade de modalidades e de financiamento para empreendimentos musicais. Devido a esta constatação, anunciou nesta terça-feira (3 de maio) em uma coletiva de imprensa na Fundação Casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro novas políticas de Estado para o setor da música. As mudanças visam um maior equilíbrio nos investimentos e o fortalecimento do Fundo Nacional da Cultura. Assim, foi anunciado que serão assinadas duas Instruções Normativas (INs) sobre direitos autorais, prometendo mais eficiência na sua aplicação prática. A primeira trata da gestão coletiva nos direitos ligados à reprodução, distribuição e execução pública no ainda obscuro ambiente da internet. A segunda exige a informação das músicas usadas em projetos audiovisuais. Além das TVs abertas, que já fazem isso, as produções para cinema e canais por assinatura que usarem música nacional deverão informar em detalhes ao MinC sobre as obras e seus respectivos autores para que esses possam receber devidamente pelas suas canções.

Mas, o maior anúncio feito está ligado ao Ministério do Trabalho. O governo federal vai injetar na economia da música 100 milhões de reais em linhas de crédito através do que está chamando de FAT – Cultura, ou seja, um fundo de amparo ao trabalhador, pela primeira vez, voltado para a área musical. Assim, o Banco do Brasil vai administrar três linhas de empréstimos que terão juros facilitados de 12,5% ao ano (tendo em vista os números de mercado de 17% a 25%). O alvo deste fundo são micro e pequenas empresas (com faturamento anual de até 3,6 milhões), cooperativas, redes e associações de músicos e empreendedores individuais, além de pessoa física (o músico que, fora das leis de incentivo e da indústria fonográfica, não consegue concretizar o lançamento de um disco, por exemplo). As ações atuarão em quatro eixos combinados: financiamento, formação, regulação e pesquisa (com desenvolvimento e inovação).

Além deste projeto nacional, no Rio Grande do Sul também vem tramitando projetos relacionados a economia da música e a busca por um mercado menos desigual. Recentemente, vem sendo discutido o projeto de lei (PL 1 2016) proposto pelo deputado Gilmar Sossella (PDT). Esse projeto, em seu artigo primeiro, “determina que as emissoras de rádio AM e FM que transmitam ou retransmitam sinal, ou que possuam atividade comercial no Estado do Rio Grande do Sul, disponibilizem no mínimo 20% (vinte por cento) da grade musical, à divulgação de trabalhos musicais compostos ou interpretados por artistas gaúchos”. Define, ainda, que “os trabalhos e obras musicais, compreendem músicas de qualquer gênero, de músicos, cantores e/ou compositores nascidos ou radicados no Estado do Rio Grande do Sul”. Como justificativa, o deputado Gilmar Sossella comenta o surgimento do estilo gaúcho, “nascido do folclore e usado na música popular ou erudita, com seus acentos diferenciais, seja na melodia, na harmonia, no ritmo, na forma ou na tessitura”.

Sossella destaca que “o projeto objetiva centrar o foco nas composições produzidas por músicos que nasceram ou adotaram o estado como sendo seu chão”. O deputado observa, ainda, a importância da cultura popular e regional como fator de identidade cultural, em sintonia com programas governamentais, como é o caso do Projeto Cultura Viva. “Este programa objetiva reconhecer, estimular e dar visibilidade a iniciativas culturais de todo Brasil que valorizem a cultura como meio de consolidação da identidade e de construção da cidadania”, justificando assim a destinação do percentual mínima de trabalhos musicais compostos ou interpretados por artistas locais a serem veiculados nas emissoras de rádio.
Contudo, na mais recente reunião para discutir o tema, realizada no último dia 26 de abril na Assembleia Legislativa de Porto Alegre, músicos e produtores de diversos segmentos expuseram suas questões e opiniões. Entre elas, algumas evidenciaram o possível desservir por meio de uma obrigatoriedade impositiva, como ocorreu em diversos países em períodos de ditadura. Outra questão evidenciada diz respeito a inadimplência das rádios, que, de acordo com números explicitados pelo produtor Ayrton dos Anjos, não repassam efetivamente todo o valor referente à direitos autorais aos músicos e compositores. 

Além dessas questões, podemos pensar também em relação aos distintos projetos, que seria inadequado utilizar dados quantitativos como medida única para aferir tendências no campo da cultura. Porém, com a ressalva de que quantidade não é qualidade, cumpre assinalar a queda no número de lançamentos de artistas nacionais. Em 2002, foram 1.472, versus 1.414 estrangeiros. No ano seguinte, totalizaram apenas 1.080, enquanto os artistas internacionais saltaram para 2.171. Considerando que, entre as 20 músicas mais executadas nas rádios brasileiras ao longo de 2003, 19 eram de artistas nacionais, podemos deduzir que a redução nos lançamentos da “prata da casa” se deu justamente nas faixas de menores vendagens. Este processo aumenta o risco de queda na diversidade cultural, banindo das prateleiras das lojas de discos artistas que não atinjam a média mínima de 30 mil cópias comercializadas.

Em geral, reconhece-se o potencial da diversidade cultural como fator de agregação de valor e que se traduz em produtos que, por trazerem inovação, têm, em alguma medida, grande aceitação no mercado transnacional do mundo globalizado, ávido por consumir o outro na forma de produtos exóticos e/ou de novidades. Em outras palavras, a cultura representa uma fonte ou “recurso” importantíssimo de riqueza num mundo globalizado. Assim, nota-se que as diferentes regiões do globo, conscientes disso, vêm buscando identificar vocações locais, de modo a concretizar expressões da cultura local em produtos e serviços.

Entretanto, muitas vezes não é notado que os fatores culturais são vetores cruciais não apenas na ponta do processo (na forma de produto ou serviço), mas também no processo em si, e que significados são incorporados quando as organizações e agentes sociais buscam investir no universo simbólico que está associado à sua produção. Com isso, eles abrem oportunidade para que processos de identificação e/ou engajamento do consumidor se produzam de maneira mais efetiva.

Este tipo de reflexão, em alguma medida, pode subsidiar a elaboração de políticas culturais mais democráticas, colaborando, entre outras coisas, para a preservação do pluralismo cultural local, e políticas de desenvolvimento, pois dada à importância da comunicação e da cultura hoje, podem auxiliar no desenvolvimento local sustentável e na ampliação da cidadania. Diante desse quadro é necessário urgentemente, portanto, o desenvolvimento de políticas culturais e de fomento que possam tanto garantir a diversidade cultural quanto o desenvolvimento e a sustentabilidade dessa indústria criativa e imaterial, capaz de contribuir de forma fundamental, direta e indiretamente, especialmente em segmentos sociais menos privilegiados e bastante expressivos em países periféricos. 

Para incitar o debate: Você acha que essas políticas para a economia da música podem auxiliar para diminuir a desigualdade de condições e ao mesmo tempo fortalecer o mercado? Caso queira, sinta-se à vontade para comentar as suas razões abaixo (no espaço de comentários).

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O verdadeiro sangue gaúcho

(crédito: Vherá Poty e Danilo Christidis/divulgação)

(...)
Cunumi...
E este meu país
de brasilidades,
que vive a vaidade,
e não olha pra ti
Cunumi...
E este meu país
Que te deve tanto,
E roube teu canto
E canta por ti... (carnaval)
Cunumi...
Este é o meu país
Que queima tua gente,
Impunimente,
Diante de ti
(Xirú Antunes) 





A população indígena no Rio Grande do Sul, segundo a última pesquisa do IBGE de 2010, é de 32.989, 15% menor do que o censo realizado em 2000 que constava com 38.718 de indígenas no estado. O conhecimento sobre os primeiros habitantes da pampa é fundamental ao falarmos sobre a construção da identidade gaúcha, devido às inúmeras contribuições culturais indígenas referentes à hábitos, conhecimentos, vocabulário, indumentárias e mitos que foram herdados pela cultura regionalista rio grandense.
Pesquisadores gaúchos, liderados pela professora Maria Cátira Bortolini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) analisaram o DNA de indivíduos residentes na pampa e revelaram que mais da metade descende de mães índias, de tribos que sumiram há 200 anos. Interessante que a pesquisa mostra que os indivíduos que forneceram as amostras de DNA desconhecem sua origem indígena, tanto que se auto definem como descendentes de espanhóis ou portugueses, ou simplesmente gaúchos, porque a relação com os índios já está muito distante no tempo.
Na construção social da identidade regional, tanto as contribuições dos indígenas quanto dos negros para a formação da população do Rio Grande do Sul tendem a ser pouco enfatizadas, quando não ignoradas (Leite, 1996; Oliven, 2006). A possibilidade de que, na formação da população gaúcha, tenha ocorrido também miscigenação com indígenas é um tema que recebe pouca atenção não somente em estudos genéticos como também por uma parte significativa da historiografia sobre o Rio Grande do Sul.

(crédito: Vherá Poty e Danilo Christidis/divulgação)

Apesar dessa ênfase limitada na miscigenação física/biológica, às populações indígenas - e aos Charrua em particular - são atribuídas influências na formação da população gaúcha do pampa. Esta é frequentemente conceituada como resultando da fusão do colono europeu com os Charrua, deles tendo herdado atributos culturais, determinadas habilidades e certas características psicológicas. Em particular, tem destaque a habilidade charrua de cavalgar, seu senso de independência e o seu caráter belicoso - alguns dos elementos mais emblemáticos da identidade do gaúcho (Becker, 2002; Oliven, 2006).
Nessas construções sobre a participação indígena, praticamente não são feitas referências aos Guarani e aos Kaingang, que sobreviveram ao processo de colonização e no presente vivem, em sua maioria, em situação de extrema pobreza em diversas regiões do estado. Tal padrão ressoa com uma tendência mais geral no Brasil e na América Latina de glorificar populações indígenas extintas e pouco enfatizar as contribuições daquelas que são contemporâneas (De la Cadena, 2000; Monteiro, 1996). Nessa visão, há uma hierarquia de valores em jogo: a ferocidade, hipermasculinidade e independência atribuída aos Charrua, em particular em relação à sua recusa de se submeter aos invasores europeus, os faz ancestrais "mais dignos e desejáveis" que os Guarani e os Kaingang. No complexo processo de construção identitária, é a "permanência psicológica" dos Charrua na "alma" da população gaúcha que é enfatizada, ao invés da miscigenação física/biológica (Rosa 1957 apud Oliven, 2006, p. 195).
Os indígenas que viviam nas terras onde hoje é o Rio Grande do Sul, antes da chegada dos europeus, pertenciam a três grupos: os Guaranis (também conhecidos como Tape, Arachane e Carijó), os Jê (grupo que os Kaingang fazem parte) e os Pampianos (grupo formado por Charruas e Minuanos). Os Guarani ocupavam o litoral, a parte central até a fronteira com a Argentina, os Jê habitavam parte norte junto a Santa Catarina, e os Pampianos se localizavam ao sul junto do Uruguai.

(crédito: Vherá Poty e Danilo Christidis/divulgação)

Os Guarani foram os grupos que formariam mais tarde os povos missioneiros, catequizados pelos jesuítas espanhóis. Os Jê foram sendo expulsos de suas terras pelos brancos que iam chegando ao território. Muitos de suas aldeias foram simplesmente massacradas. No século XIX, os poucos Jê que sobraram foram obrigados a viver em pequenas reservas. Com a ocupação de suas terras por portugueses e espanhóis, os Pampianos foram obrigados a ir cada vez mais para o interior. A escassez de recursos provocou a fome, e a situação se agravou com as epidemias e as guerras. Muitos deles foram trabalhar nas fazendas dos colonizadores europeus. Os Pampianos que restaram foram massacrados por tropas uruguaias na década de 1830.
Atualmente, as áreas destinadas aos Kaingang estão relativamente demarcadas. No entanto, estas áreas são muito pequenas para o número de índios que nelas habitam. Isso ocorre porque as reservas originais criadas no século XIX, perderam grande parte de sua área devido a invasão de pecuaristas e extrativistas e ao assentamento de colonos. Ainda hoje, os índios disputam suas terras com os agricultores que foram assentados entre as décadas de 1940 a 1960. Além disso, o constante uso do solo acabou o degradando, tornando a produção insuficiente para alimentar as famílias. Tal situação faz com que a maioria dos Kaingang viva na miséria e muitos até passam fome. Os Guarani que atualmente vivem no Rio Grande do Sul são pouco mais de mil, a maioria no litoral. Sua constante migração dificulta a comprovação histórica com as áreas que eles habitavam e a sua demarcação. Por isso muitas famílias de guarani vivem hoje ao longo das rodovias.
Ao contrário de perspectivas ditas realistas o índio no Rio Grande do Sul não se transformou em branco, nem foi totalmente exterminado, mas iniciou uma lenta e contínua recuperação demográfica. Em um contexto nacional em que o desenvolvimento econômico é institucionalmente defendido como a solução para todos os males sociais, se faz necessário refletir sobre a forma como os indígenas são compreendidos na atualidade. A evidente emergência de discursos equivocados, e muitas vezes anti-indigenistas, evidenciado pelo preconceito ou desconhecimento, tem consequência direta na vida destas coletividades, na forma como são tratadas cotidianamente pelas populações não-índias com as quais inevitavelmente convivem e compartilham espaço. O preconceito afeta diretamente as vidas destas coletividades de inúmeras maneiras, já que consciente e inconscientemente estão refletidos nas políticas públicas estatais, além de estarem presentes também nos meios de comunicação, e entre a ampla maioria da população.
Ainda temos muito a conhecer e aprender com esses povos, e sim buscaremos fazer aqui em próximas oportunidades aprofundando esta reflexão. Conhecimentos sobre coletividade e sustentabilidade social e ambiental, especialmente relacionadas às formas de manejo e conservação dos recursos naturais, são algumas das importantíssimas contribuições que devemos descobrir com estas culturas, visto que o cenário global a partir da supervalorização do desenvolvimento econômico dentro dos ideais capitalistas se mostra inadequado e insustentável. Exemplo claro deste fato é a triste realidade do bioma pampa, atualmente ameaçado devido à expansão das monoculturas e das áreas de pastagens (segundo o Ministério do Meio Ambiente no ano de 2008 restava apenas 36,03% da vegetação nativa desse bioma). Sobre o “amor à terra” por tantas vezes cantado, e sobre às exaltações de uma origem indígena quando se é conveniente, é que devemos pensar, agindo de acordo com a lastimável realidade que se mostra e não apenas a construções míticas. 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Alucinações Farroupilhas em 2016


     Tão importante quanto as transformações são as permanências e como elas se resignificam no tempo presente. Essa semana abordaremos sobre o Movimento Sangue Farrapo e suas aspirações farroupilhas no mundo contemporâneo. 


Alucinações Farroupilhas em 2016





As artes contemporâneas alcançaram um grau de independência quanto à realidade não artística. Esta visão nos abre um leque de possibilidades sobre a intencionalidade e funcionalidade das obras construídas na música gaúcha, como viemos discutindo.
Diferentes do papel social que a música nativista possuía na época áurea dos festivais (década de 1980), nos dias atuais o segmento de música nativista traz em sua maioria de temas visões “romantizadas” e ligadas a um tempo mítico construído. Para o sociólogo Bauman (1997), as artes partilham da situação da cultura pós-moderna como um todo onde a arte, agora, é uma entre as muitas realidades alternativas e cada realidade tem seu próprio conjunto de procedimentos, táticas abertamente auto-proclamadas para sua afirmação e identificação.

As artes dos nossos dias não se mostram inclinadas a nada que se refira à forma da realidade social. Mais precisamente, elas se elevaram dentro de uma realidade sui generis e de uma realidade auto suficiente nesta. (...) Como Jean Baudrillard o exprimiu, é uma cultura do simulacro, não de representação. (...) É cada vez mais difícil indagar, e mesmo mais difícil decidir qual é o primário e qual é o secundário, qual deve servir como ponto de referência e critério de correção ou adequação para o resto. (p. 129)
        
Por meio da argumentação explicitada por Bauman podemos pensar a realidade gaúcha, para isso não podemos deixar de levar em conta a Revolução Farroupilha (1835-1845) por ser o marco histórico fundador da identidade gauchesca construída e certamente uma das maiores fontes de inspiração da cultura gaúcha. No entanto, são poucos os que problematizam essa guerra civil que ocorreu em uma sociedade não igualitária, salvo a historiografia mais atual sobre o tema. Ao evocá-la com orgulho, os sul-rio-grandenses demonstram sua importância por considerarem-na como o surgimento do sentimento de pertencimento gaúcho, que alicerçada por este fundamento histórico, transmite caráter de verdade. Deste fato histórico, assim como de outras guerras, brotaram os conceitos característicos da figura mítica do gaúcho, como ser bravo, guerreiro, destemido e, principalmente, ligado à sua terra, que virá a refletir tais atributos em sua literatura e em sua música de vertente regionalista.
Contudo, são estes atributos míticos que estão sendo “reciclados” por um
Movimento, aqui no Rio Grande do Sul, chamado Sangue Farrapo. Seu intuito é levantar-se contra a corrupção no país e apoiar o pedido de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff. Em outras palavras, por meio da nossa “herança farroupilha”, esse “sangue que pulsa em nossas veias”, dos “ideais e exemplos farroupilhas” devemos nós, gaúchos, nos levantarmos e dizermos um basta! Nos insurgirmos mais uma vez contra essa exploração! Mas, calma, vamos pensar um pouquinho sobre tudo isso?!
            Para começo de conversa, devemos ter em mente que a Revolução Farroupilha aconteceu no século XIX (1835-1845), dessa maneira, trazer seus ideais para os dias atuais (século XXI) é um tanto anacrônico e confuso. Mas, vejamos em linhas gerais o que foi a Revolução Farroupilha e como esse Movimento Sangue Farrapo dialoga com esses ideais. Segundo a historiadora Maria Medianeira Padoin (2006) tal revolução surgiu como fruto dos interesses econômicos e políticos de uma elite da campanha sul-rio-grandense que, por meio de vínculos e crenças políticas defendia um projeto político que teve no federalismo a sua bandeira. A defesa do federalismo se apresentava, dentre outras coisas, como uma reação ao processo de centralização do Estado brasileiro. Assim, a elite farroupilha formada em sua maioria por grupos de pecuaristas uniu-se contra o centralismo monárquico que, para eles, prejudicava os interesses econômicos e políticos. Mesmo não tenho exatamente os mesmos interesses, estancieiros e charqueadores se sentiam prejudicados pelos impostos e taxas cobradas pelo governo imperial, particularmente depois da Independência do Uruguai. Aqui vemos semelhanças entre um movimento e outro, para começar ambos partem de elites ligadas ao campo. Segundo o jornal Correio do Povo (23/03/2016) o grupo que protestou no feriado de páscoa, montado a cavalo, era formado “por trabalhadores ligados ao campo fazendeiros, agricultores e empresários...”. Ambos, mesmo em tempos históricos diferentes, se sentem prejudicados pelos altos impostos que pagam e, por pagarem (fato enfatizado várias vezes em suas manifestações nas redes sociais) tem direitos de questionar o governo central e, “buscar alternativas” para “mudar” o Brasil.
            No entanto, é um equívoco pensar que toda a elite sul-rio-grandense aderiu a causa farroupilha. Não houve adesão total por parte dos comerciantes, por exemplo, além disso, a maioria dos habitantes urbanos não aderiu a revolta. Dessa forma, de acordo com o historiador Fábio Kühn (2011, p.79) “fica claro que o conflito não foi de aceitação unânime, sendo uma mera construção historiográfica a ideia de que “todos os gaúchos” pegaram em armas contra o Império. Esse discurso político serviu muito mais para legitimar – em diversos momentos históricos – os interesses da elite regional do que qualquer outra coisa. Sob a capa da defesa dos interesses liberais cabe muita coisa, mas na prática, os “farroupilhas” eram tão conservadores quanto a elite central contra a qual lutaram. ”. Isto posto, fica evidente aqui mais uma vez, o uso dessas ideias ilusórias de unanimidade e adesão às ideias farroupilhas retomadas por esse Movimento Sangue Farrapo. Da mesma maneira de muitos momentos históricos, nos dias atuais, tal movimento se utiliza dessas ideias muito mais para defender os interesses de uma elite rural do que qualquer outra coisa. Trazendo mais uma vez uma ideia de que todos os gaúchos estavam do mesmo lado, agora todos devem se unir novamente, “sob esse sangue farrapo”, para defender a nação!
            Essa ideia de defender a nação e ser patriota acima de qualquer interesse também se mostra um paradoxo com os ideais farroupilhas pois, “aceitar a independência da província do Rio Grande do Sul e, assim, o seu caráter separatista significa negar o fato histórico construído e representado como sendo o povo gaúcho exemplo de patriotismo e de glórias, desestruturando a imagem identitária do gaúcho gentílico e mítico diferenciado do gaúcho argentino e uruguaio, ou seja, implica questionar uma história do Brasil criada sobre adjetivo como homogeneidade, uniformidade e pacifismo.” (PADOIN, 2006, p.40).
Enfim, poderíamos elencar uma série de outras coisas, mas o que fica aqui é o seguinte: a Revolução Farroupilha foi uma guerra civil que dividiu o Estado. Ao contrário do que muita gente pensa muitas pessoas não concordavam com as ideias farroupilhas. De acordo com o historiador Moacyr Flores esta foi uma guerra iniciada pelos grandes proprietários rurais, chamados estancieiros. O Império, que já cobrava impostos das propriedades urbanas, decidiu cobrar impostos sobre as propriedades da zona rural. A população de Porto Alegre, por exemplo, foi a favor da taxação dos grandes estancieiros já que os pequenos proprietários rurais da cidade já eram taxados. Por esse ponto de vista, realmente esse Movimento Sangue Farrapo, vindo de organizações rurais de agronegócio e outros setores mais favorecidos, é coerente, de certa forma, com os ideais farroupilhas. Contudo, o que resta nos questionarmos aqui é: queremos outra guerra civil? Pois no rumo em que as coisas estão indo não é de se admirar que venhamos a vivê-la novamente. Por isso, é preciso cuidado e cautela ao exaltar ideais romantizados de nosso passado mítico, pois o mito não é real. E a realidade é bem mais perigosa.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

SE SE CALA O CANTOR

  Depois de alguns anos trocando ideias, livros, experiências, angustias e alegrias em relação as nossas pesquisas, resolvemos sair das nossas zonas de conforto, romper os muros da academia e usar dessa maravilhosa ferramenta, que é a internet, para dialogar com vocês. A partir dessa retomada, nesse momento que, julgamos nós, ser crucial estabelecer um diálogo, tivemos uma recepção bem grande.  O que nos mostra que existem muitas pessoas querendo refletir e dialogar conosco e com seus pares.

    Nossa ideia é exatamente essa: trazer uma reflexão e gerar um debate. Importante ressaltar que nós não somos donas da verdade, aliás, ninguém é. Assim como não existe verdade absoluta, existem sim pontos de vista sobre as coisas. Como nos mostra a história, apesar de os fatos não mudarem, as interpretações acerca deles estão em contínua reelaboração através dos vários tempos históricos. 

    O expressivo volume de visualizações no blog, de compartilhamentos e de comentários (prós e contras) nos levam a pensar que vale a pena se dedicar para observar fenômenos, pesquisar e pensar formas de transformar isso tudo em uma pauta para conversar com vocês. Dessa maneira, agradecemos imensamente à todos pela colaboração e pela vontade de refletir, dialogar e buscar soluções para os problemas apontados. Espero que sigam conosco e que esse blog seja um espaço de reflexão e debate, pois só assim criamos conhecimento e conseguimos nos esclarecer acerca das coisas. 

    Essa semana, buscando um diálogo entre os últimos dois textos, resolvemos escrever juntas sobre a importância de uma posição esclarecida dos artistas, enquanto seres políticos, conscientes do seu meio e de suas ações. Para tal, Horácio Guarany nos deu o mote e Mary Terezinha o exemplo. Vejamos agora:

SE SE CALA O CANTOR



    O grande desafio das pesquisas em música atualmente, principalmente na área de Etnomusicologia, é entender o papel que a música tem na vida das pessoas e por que os seres humanos fazem música. Esse é o grande desafio! Há milhões de pessoas diferentes, vivendo em contextos distintos, usando músicas de formas bem diversas. Atualmente vivenciamos uma mudança das análises baseadas na concepção de música como símbolo para música como ferramenta, ou seja, está havendo uma mudança de foco nas pesquisas. Em vez de tentar achar reflexos identitários, atualmente tem-se buscado, nas pesquisas em música no mundo todo, compreender a mesma como uma ferramenta que está à disposição das pessoas, para gerar experiências de encantamento, ou, por exemplo, influenciar estados de espírito e a própria vida cotidiana.

    Esses novos estudos dedicam-se em compreender como as pessoas estão usando a música como um meio de controlar, ou melhor, de influir no seu estado emocional. Ela pode ser utilizada politicamente, tanto por grupos subalternos, quanto pelos grupos hegemônicos, como forma de controle, estando a política sempre presente em qualquer contexto musical. A música pode envolver desde a política do indivíduo (a construção de sua identidade), até questões políticas de grupos específicos, e ainda se referirá a questões muito mais amplas. Não há música sem dimensão política, até mesmo porque questões de poder estão presentes em todas as relações sociais.

    Pensando nisso, chegamos a canção emblemática de Horácio Guarany “Si se calla el cantor” (1975) que nos serviu se mote para reflexão, a qual citamos na íntegra:

Si se calla el cantor calla la vida
porque la vida misma es todo un canto,
si se calla el cantor muere de espanto
la esperanza, la luz y la alegría.
Si se calla el cantor se quedan solos
los humildes gorriones de los diarios,
los obreros del puerto se persignan,
quién habrá de luchar por sus salarios.
Qué ha de ser de la vida si el que canta,
no levanta su voz en las tribunas,
por el que sufre, por el que no hay ninguna razón
que lo condene a andar sin manta.
Si se calla el cantor muere la rosa,
de qué sirve la rosa sin el canto,
debe el canto ser luz sobre los campos,
iluminando siempre a los de abajo.
Que no calle el cantor porque el silencio,
cobarde apaña la maldad que oprime,
no saben los cantores de agachadas,
no callarán jamás de frente al crimen.
Que se levanten todas las banderas,
cuando el cantor se plante con su grito,
que mil guitarras desangren en la noche,
una inmortal canción al infinito. 



    Horário Guarany, artista representativo do folclore argentino e de grande inspiração para muitos artistas do nativismo gaúcho, expõe através dessa canção sua posição enquanto artista, enquanto ser político. Pede que os cantores (e aqui pode-se ler artistas) não se calem, que usem de sua voz para melhorar a sociedade. Pois se se calam o que será dos menos favorecidos? Dos que não tem voz? Para Horácio Guarany é missão do artista se levantar, questionar, cantar e através de sua arte dar voz aos menos favorecidos.  Dessa forma, percebemos uma postura crítica e esclarecida do autor do papel político que a música tem, como dissemos acima. Não se faz arte sem ideologia! Não se faz arte só por beleza, pois até o senso estético, relacionado ao gosto musical, é uma questão ideológica, jamais vazia de significados. 

    Fato interessante é que essa mesma canção foi gravada pela cantora e acordeonista gaúcha Mary Teresinha em seu disco intitulado “Km 1” (1987), em versão traduzida para o português (Versão: Camarguinho - Participação: Antônio Gringo). É notável, não só neste álbum, mas em diversas gravações da musicista, como a questão da desigualdade social é evidenciada através de letras de canções que falam em favor das classes desfavorecidas. Importante percebermos que esse eu-lírico é feminino, em confluência com o assunto de música e gênero que viemos abordando há alguns dias. Inclusive, precisamos falar sobre Mary Terezinha, e assim o faremos em uma oportunidade próxima. Por agora, pensemos o que significa uma mulher na década de 80 posicionar-se desta forma, especialmente no Rio Grande do Sul? Talvez por ser vista sempre como coadjuvante da história de Teixeirinha, (tanto que foi apelidada como “Teixeirinha de saias”) até hoje seu engajamento social em canções tem sido pouco evidenciado e valorizado pelos pesquisadores. Uma pena, tendo em vista a figura expressiva que ela representa para a música gauchesca, para as mulheres e para os desfavorecidos, tendo como base alguns de seus álbuns que evidenciam esse assunto. 


    Mas, voltando ao tema, é crucial destacar que a historiografia mais tradicional do Rio Grande do Sul foi criada por intelectuais advindos das classes dominantes, ou seja, pessoas ligadas as heranças do latifúndio e da criação extensiva de gado. Assim como os criadores do tradicionalismo gaúcho. E da grande mídia em geral. No entanto, em meados dos anos de 1970 outras visões e vozes surgem, tanto na historiografia quanto no gauchismo dentro dos contextos de ditaduras civis-militares na América Latina. Essas vozes, buscavam aproximação com a realidade explorada e pobre desses países, de falar também dessa gente e de sua vida. Dessas versões surgem os “gaúchos a pé”, os que outrora eram peões e agora sem emprego no campo, dominado pelo agronegócio, tentam uma vida digna nas cidades tornando-se proletários. 

    No entanto, é comum, atualmente, vermos em entrevistas muitos artistas ligados a música gaúcha constantemente evidenciarem e justificarem o seu contato com o ambiente rural, seja por meio da criação de gado, ou de cavalos, ou com algum tipo de plantação agrícola. Fica assim explícita a necessidade de demonstrar esta ligação, por ser considerada questão importante para justificar sua credibilidade em poder relatar as informações representadas nas canções, através do contato com o universo campeiro, mesmo que essa não seja, de fato, a sua realidade cotidiana. A partir das falas de alguns interlocutores em minha (Clarissa) pesquisa de mestrado (Campeirismo musical e os festivais de música do sul do Brasil: a (pós) modernidade (re) construindo o ‘gaúcho de verdade) essa questão ficou bem clara, notamos que a origem dos artistas ligados à música gaúcha advém de diversificados meios, sendo muitos citadinos e sem ligação familiar com o campo.

    Em decorrência dessas constatações, ficou evidente uma série de questões que, para finalizar, compartilhamos com vocês no intuito de ampliar esse debate: Se a base das representações de arte e identificação do Rio Grande do Sul vem de uma ótica baseada no universo latifundiário, será que hoje elas são válidas visto que vivemos de outro modo? O artista com voz atualmente no cenário gauchesco advém dos ambientes culturais aos quais defendem em suas canções? Há uma consciência sobre o que se canta? De que lugar social partem as vozes artísticas? Esses lugares são assumidos claramente? Que vozes pretendem esses artistas representar? Que interesses estão por trás das canções? Por que muitas vezes se calam?