sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Nem chinoca, nem flor, nem morocha!: Sobre o machismo e a música gauchesca (Parte I)

Clarissa Figueiró Ferreira
(violinista e etnomusicóloga)

O tema abordado neste texto traz uma questão polêmica e, incrivelmente, ainda pouco discutida: o machismo na cultura gauchesca. Trataremos aqui, em especial, sobre os discursos musicais e performáticos que ecoam há décadas e que atualmente ainda permanecem.




Este assunto acompanha-me desde quando comecei a atuar como instrumentista neste universo cultural onde a presença feminina, se comparada à masculina, é muito pequena, restringindo-se a algumas cantoras e poucas instrumentistas. Apesar de tanto tempo refletindo sobre essas questões, aliando a prática com a pesquisa em música, até o momento não me sentia confortável a falar sobre tal tema, talvez por não ter as questões devidamente sazonadas até então. Através do meu distanciamento geográfico, e a vivência com algumas representações artísticas sobre este enfoque, como exposições, filmes e leituras, nos últimos meses foram amadurecidas algumas reflexões e juntamente a elas, veio a necessidade de dividir e dialogar de forma mais densa.

Primeiramente, a questão de gênero está ligada de forma direta com as representações, e interpretações sonoro musicais, como afirma a musicóloga Lucy Green (1997):

Quando escutamos uma mulher cantar ou tocar, quando escutamos a uma música que ela compôs ou improvisou, não apenas escutamos os significados pertencentes à música, também estamos conscientes de sua posição discursiva vinculada a gênero e à sexualidade. Por este motivo, sua feminilidade torna-se parte do discurso pertinente à representação musical. Quando a musica retrata feminilidade através de uma intérprete ou compositora, nós estamos sujeitos a julgar o manuseio de seus significados por esta intérprete ou compositora em termos de nossa ideia sobre sua feminilidade. Em um relacionamento de circularidade, gênero em prática musical, significado musical e experiência musical estão entreligadas.

Sendo assim, vamos refletir sobre algumas questões: Já pensaram porque as mulheres na cultura gauchesca usam saias longas em suas performances musicais? Quantas vezes já ouviram músicas cantadas por mulheres em que representavam a esposa ou filha que esperava os homens voltarem da guerra? Até que ponto estas questões são tradicionais, visto que como sabemos as tradições não são estanques e sim dinâmicas? Será que há um esforço de alguns órgãos institucionais e midiáticos para que tais estereótipos sejam reforçados?

Para começar, vamos adentrar ao tema através das representações visuais e performáticas femininas na cultura gauchesca. Diretamente ligada a isto está o comportamento da mulher, chamada de “prenda”, relacionada à delicadeza, ao recatamento, e com vestimentas que colaborem com esta imagem, como os vestidos e saias longas que também representam um tempo passado, como damas da sociedade do século XIX. Porém, uma mostra de que estes entendimentos são totalmente construídos, é a citação feita por Barbosa Lessa em seu livro, “O Nativismo”, explicando porque as “prendas” devem vestir-se assim. Em uma subdivisão de seu livro, faz referência a Hobsbawn e Ranger intitulando de “A invenção das Tradições”, na qual enuncia as diversas invenções culturais hoje tidas como naturais na cultura gauchesca:



E como é que é o vestido das moças: Como modelo, aproximado, só havia os vestidos caipiras, das festas juninas de São Paulo, ou as “folhinhas” anuais distrubuídas pela Cia. Alpargatas na Argentina. Paixão encasquetou que deviam ser vestidos compridos até os tornozelos; eu argumentei que se nós, rapazes, estávamos trajando nossas constumeiras bombachas, não carecia que as moças se voltassem para tão longe nos antigamentes; isto não chegou a ser posto em votação, mas o bigodudo Paixão nos venceu pelo cansaço... (LESSA, 1985)



Esta colocação certamente mostra como a representação feminina no gauchismo foi construída a partir de alguns entendimentos, e como ela até hoje vem sendo multiplicada até mesmo nas visões ditas como modernizadoras da cultura gauchesca. O objetivo aqui é debater sobre como estas questões são pensadas como sendo naturais, justificadas por serem culturais, e como que ocorrem certos tratamentos de diferenciamento de gênero através destas justificativas. Ou seja, tentaremos desconstruir a ideia de gênero masculino e feminino na cultura gauchesca, como algo dado.

Representações das mulheres em canções

Em pesquisa realizada por Laura Rosa da Silva e Leandro Castro Oltramari no ano de 2010, intitulada “De beija-flor a urubu: representações das mulheres na música gaúcha”, há uma análise de composições dos segmentos da música campeira e da tchê music, onde foram classificadas em sete categorias cerca de 80 músicas na qual referiam-se de alguma forma a mulher. A categoria onde foram encontradas mais músicas foi “Coisificação das Mulheres”, as quais de alguma maneira caracterizam as mulheres como algo atrelado ao uso, consumo, e, portanto, as colocam fora da posição de sujeito, aproximando-as da ideia de coisa.

Como exemplo, os autores apresentam trechos como: “Aprendi a domar amananciando égua, e para as mulher vale as mesmas regras”, da composição “Morocha” de Mauro Ferreira e Roberto Ferreira, apresentada no festival Coxilha Nativista no ano de 1984, provocando a desaprovação de parte do público, como podemos ver em vídeo:



                                              

O processo de coisificar a mulher, afastando-a da posição de sujeito foi detalhado pelo filósofo Abbagnano (2007), definindo-o como um objeto que de um modo qualquer se possa tratar. Portanto, as mulheres estavam ligadas a comparações diversas, como animais e elementos da natureza contemplados (flores, estrelas, etc). Os autores dividiram esta categoria em três subcategorias, denominadas:

·        Contemplação das mulheres;
·        Mulheres comparadas a animais;
·        Mulheres atreladas ao consumo;

Certamente é fácil para todos compreenderem que há certa violência simbólica quando há comparação das mulheres com animais, porém, muitas vezes não entende-se que possa ser também uma ofensa  a própria comparação com objetos. Essas representações de machismo são expostas na grande maioria das vezes de forma implícita, e velada, o que poderíamos chamar de “poder simbólico”, como o sociólogo Pierre Bourdieu conceitua.

A subcategoria “Contemplação das mulheres” foi localizada em todos os representantes musicais analisados, trazidos os trechos de exemplos: “Coração na noite serena, te vê na estrela mais linda” (João Luiz Correa e Grupo Campeirismo) e “Minha flor pequena, dessas que nascem pelos rincões, trazendo a graça das corticeiras, enfeita a tarde por ser tão bela” (composição “Sonho em Flor”, com letra de Gujo Teixeira) .  A ideia constituída nestas frases é a de que as mulheres são coisas a serem admiradas, contempladas, justamente porque a beleza é muito valorizada no aspecto feminino (KANT, 2000 apud BORGES, 2005).




A subcategoria “Mulheres comparadas a animais” chama atenção a referência do feminino elaborada através de um animal: “um beija-flor em urubu se transformou” (Grupo Tchê Garatos). De uma ave delicada, pequena, que busca as flores, a mulher se transforma em um urubu, grande e que se alimenta de outros animais, em decomposição. Como visto anteriormente, a delicadeza e a beleza são aspectos valorizados nas mulheres. A metáfora utilizada nessa categoria pode estar atrelada à vivência do homem do campo, que com frequência lida com animais, como em rodeios, o gaúcho exerce para com os animais o papel de domador, criador (CONFORTIN, 2008). Outro exemplo que os autores trazem é: “Pois china eu laço com os tentos” (João Luiz Correa e Grupo Campeirismo). O termo “china” faz menção a mulher, e ato de laçar é comum para animais como cavalo e gado. Apesar de estar ligado à realidade do campo, não se pode deixar de refletir sobre a posição de submissão em que as mulheres são colocadas através da comparação com animais.

Para Bozon (2003) as mulheres continuam a ser vistas pelos homens como mais um objeto a ser possuído. A atitude passiva e submissa nas mulheres também foi percebida por Neckel (2007), como frequente em mulheres que na construção de suas vidas fizeram constantes renúncias, em função do outro ou para agradá-lo. Este é o caso do termo “prenda”, no qual as mulheres são chamadas no ambiente da cultura gauchesca, ou seja, um presente, algo a ser pertencido por alguém, mais uma vez distanciando-se da posição de sujeito. Sobre este termo o historiador Tau Golin alerta:

O termo prenda foi inventado pelo tradicionalismo, as mulheres do Rio Grande do Sul nunca foram chamadas de prenda historicamente. Então é um conceito que começou a ser transformado em realidade e produzido naturalmente e, naturalizado sendo, veio o preconceito. (...) Isso vai aparecer de várias formas na cultura como, por exemplo, a própria invenção dos homens, a partir do CTG 35 e que hoje está instituído no MTG, de a mulher não aparecer mais como um gênero feminino, mas através da alcunha de prenda. O sentido, a essência do termo prenda não é só etimológico, mas a visão do homem tradicionalista sobre a mulher. Prenda significa adereço, aquilo que é um penduricalho do homem, aquilo que o homem usa até com algumas palavras pretensamente afetivas, mas que na verdade destina esse lugar à auxiliar e jamais a possibilidade de desenvolver uma cultura na qual os gêneros e as relações sociais seja desenvolvida entre iguais, não interessando o protagonismo. (2014)

A subcategoria “Mulheres atreladas ao consumo” foi observada principalmente atribuindo a mulher como algo comestível, devido a isso utilizou a noção de consumo. No trecho “Tô com namoro meio atado com a filha da Manuela. Eta! gringa bem servida coisa boa de costela” (João Luiz Correa e Grupo Campeirismo), a mulher é representada num pedaço de carne, para comer. Parker (1991) observou que o “comer” na relação sexual pode indicar, com frequência, o sujeito passivo ou ativo. O que “come” é o ativo na relação, e o que é “comido” é o passivo, que espera, que se sujeita e que aceita o ato. Outra frase explicita com clareza: “(...) cachaça derruba o homem. Mulher também derruba. Só que elas a gente cooo...” (Grupo Tchê Barbaridade). Nesta, as mulheres são comparadas com uma bebida alcoólica. O indício do uso do verbo comer denota que tanto a cachaça quanto a mulher derrubam o homem, mas a vantagem estaria na mulher, que pode ser “comida”. Para Bozon (2003) tal realidade é atual, exemplificada no ato sexual, em que os homens continuam tendo o papel central e ainda se mostram mais ativos do que as mulheres.



Outra categoria trazida na pesquisa foi “Mulheres que trazem sofrimento”. Tal atribuição, de causadora de sofrimento, foi encontrada em um estudo realizado por Ruben Oliven (1987) com letras de música do gênero MPB, que observou que as mulheres aparecem capazes de propiciar segurança afetiva aos homens, ao se mostrarem, muitas vezes, vítimas de perdas, sendo que somente a esposa poderia lhe ajudar na recuperação através de um amor praticamente incondicional. Esse poder dado a mulher possibilita que, quando ausente, a mesma cause tanto sofrimento, sendo responsabilizada pela dor alheia. Possivelmente a inconformidade do homem em relação ao abandono da mulher seja a incompreensão de que a mesma não se satisfaz mais com o que o lar proporciona, optando buscar o prazer de viver fora da morada, deixando-o surpreso.

Para Cardoso (2007) as mulheres foram significadas com papéis de mãe e esposa, cujas características foram delineadas por razões a uma suposta fragilidade e que, portanto, precisariam de resguardo, possível dentro da morada. Este é o caso da resposta à música “Morocha” aqui referida, composta meses depois da apresentação no festival Coxilha Nativista (1984), tendo como nome “Morocha, Não!” de autoria do músico Leonardo. Nos versos “E que os deveres de um macho é proteger e amar” e “Invés de usar um pelego, use o arreio ternura, enlace pela cintura, jogue fora o maneador”, estão representados os entendimentos de diferenciação de gênero, vendo a mulher como um sujeito frágil que carece cuidado do homem.


A partir das análises trazidas pelos autores podemos imaginar a dificuldade de identificação de parte dos jovens desta geração com tais representações de gênero. Por outro lado sabemos como é grande o público consumidor desta música, e que identifica-se com estes simbolismo, talvez devido a suas elevadas reproduções. Assim, continuaremos este tema do próximo texto, tratando de como são recebidas estas mensagens e o que elas representam atualmente.

Fiquem a vontade para expor opiniões e questionamentos.

Até breve!