domingo, 31 de agosto de 2014

O que é folclore? Atualmente se faz folclore no Rio Grande do Sul?

No último dia 22 de agosto foi comemorado o Dia Nacional do Folclore, e juntamente com ele, vimos algumas manifestações sobre a data que trouxeram a reflexão sobre qual seria o significado do termo.

Foi lançado um desafio na fanpage Gauchismo Líquido trazendo as seguintes questões:

O que é folclore?Se faz folclore atualmente no Rio Grande do Sul?



Felizmente, no debate surgiram ótimas contribuições, das quais algumas estão aqui citadas. A importância de fazer esse diálogo é principalmente a construção e conhecimento de outros pontos de vistas, formando-se um discurso dialógico e colaborativo, além de trazer um tom polifônico à discussão.

Para começar, é indispensável sabermos que esta data foi oficializada pelo Congresso Nacional no ano de 1965, com o intuito de “valorizar as histórias e personagens do folclore brasileiro, dando ênfase à cultura popular e buscando a sua preservação”. Porém, é necessário entendermos o contexto temporal da oficialização desta data, e o que ela representa, para que possamos “comemorá-la”, certo?

Entende-se folclore como: a sabedoria do povo transmitida ao longo de gerações através da oralidade. Porém, o folclore foi utilizado no século XX pelo discurso nacionalista como um instrumento de propaganda, razão pela qual foi particularmente apoiado pelo Estado em vários regimes autoritários. 

Inúmeros foram os movimentos no século XX de resgate e busca por valorização das culturas locais. No livro Projeto e MissãoO Movimento Folclórico Brasileiro, 1947-1964, de Luis Rodolfo Vilhena (1997), é discutida a ascensão e o declínio do movimento folclórico no Brasil, e a busca por sua institucionalização como disciplina, buscando compreender a razão por tal fato não ter acontecido e por ser agregado no presente uma conotação pejorativa a significação semântica da palavra folclore. Entre seus argumentos está o fato de que o fenômeno consistiu em apontar a debilidade teórico metodológica da pesquisa de folclore, produtora de ideologia, não de conhecimento.

Principais responsáveis pela construção da identidade cultural brasileira, como conhecemos atualmente, foram as missões realizadas no século XX por Mário de Andrade e Marcos Pereira.  Com o objetivo de fazer um mapeamento musical do Brasil, o pesquisador Mário de Andrade de 1935 a 1938 percorreu diversas regiões do país, fazendo gravações das manifestações culturais. Devido a grandiosidade da missão o projeto ficou inacabado, apesar de que, como é citado no livro Acervo de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade 1935-1938, haviam mais de 1.200 fonogramas registrados destas viagens. Até pouco tempo estes arquivos eram inacessíveis para o público em geral, até que  a Secretaria de Cultura de São Paulo e o SESC-SP lançaram um box com seis cds contendo parte desses registros sonoros.

Quase 40 anos após a Missão de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade, Marcus Pereira começou a viagem afim de mapear o Brasil através de suas músicas e, diferente de Mário de Andrade, ele chegou até o sul. Desta busca, surgiram cerca de 16 volumes, chamados de Música Popular, divididos em Região Nordeste, Centro Oeste e Sudeste, Norte e Sul. Os quatro volumes de Música Popular do Sul trazem sambas, músicas da região das missões, mazurcas, "polquinhas de galpão", canções, chulas, milongas, toques, batuques, terços, rosários, danças, cantos de pescadores, cantos de lenhadores, cacumbis, desafios, declamações, fandangos, rancheiras, bugios e chotes. Neles estão Moisé Mandadori (já citado no texto A Indústria da Música Gauchesca (Parte I), Elis Regina, Beto Ruschel, Zé Gomes e Neneco, Os Tapes, Dércio Montiel, Noel Guarani, Telmo de Lima Freitas, Luís Menezes, etc.

Em relação ao sul do Brasil, como sabemos, os mais reconhecidos responsáveis pelas pesquisas folclóricas foram os pesquisadores Barbosa Lessa e Paixão Cortes. Conta-se que após participarem de uma festa "de los gauchos" no Uruguai, onde viram apresentações de danças e músicas, comida típica, vestuário, ficaram indagados em buscar o folclore sulino. Começaram, então uma busca "da cultura de raiz" do povo rio grandense, em uma empreitada particular sem apoio de governo ou patrocínio comercial.

Manual de Danças Gaúchas de Lessa e Cortes
Destas pesquisas surgiram a criação dos manuais de dança e música de Barbosa Lessa e Paixão Cortes que tornaram-se referência para a cultura tradicionalista do Rio Grande do Sul. O Movimento Tradicionalista Gaúcho, onde por meio dos Centros de Tradições Gaúchas associados a ele, (situados em praticamente todo território do Rio Grande do Sul, diversos estados do Brasil e até mesmo em outros países) propagou o conhecimento produzido por estes pesquisadores. 

O fato é que como salienta a estudante de antropologia, Sabrina Manzke, na discussão trazida na fanpage do blog: "o que sai do estado para fora não é o folclore do RS.  Vejam bem, não que não seja importante e que não nos "represente" de alguma maneira. Porém não pode ser tomado como O folclore do RS. Não é nem 20% dele." Ou seja, as danças tradicionais coletadas por Lessa e Cortes não abarcam todo o fazer folclórico do estado. Como o folclore está ligado a construção de identidade e de uma representação para o outro, o contexto temporal das pesquisas folclóricas no Rio Grande do Sul apontam a objetivação de construção de uma imagem para o estado, de maneira uniformizante.

De acordo com Oliven, “ambos os autores [Cortes e Lessa] estavam preocupados com os efeitos do crescimento da população, as conseqüências da urbanização e as modificações na família e nos grupos locais, problemática recorrente nas ciências sociais da época, fortemente influenciadas pelos trabalhos de Durkheim, escritos na França no século XIX”. Em 1943, Ralph Linton definiu o nativismo como "qualquer tentativa consciente e organizada, por parte dos membros de uma sociedade, de reavivar ou perpetuar aspectos selecionados de sua cultura" (1943, p.220), e sobre este conceito Lessa debruçou-se, escrevendo:

Devido ao surto surpreendente do maquinismo em nossos dias, bem como da facilidade de intercâmbio cultural entre os mais diversos povos, observa-se que o núcleo das culturas locais ou regionais vai se reduzindo gradativamente, a ponto de se ver sufocado pela zona das alternativas. E a fluidez naturalmente se acentua, à medida que as sociedades mantêm novos contatos com traços culturais diferentes ou antagônicos, introduzidos por viajantes ou imigrantes, ou difundidos por livros, imprensa, cinema, etc. (...) Conforme ensina Ralph Linton ‘embora os problemas de organizar e governar Estados nunca tenham sido perfeitamente resolvidos, uma coisa parece certa: se os cidadãos tiverem interesses e culturas comuns, com a vontade unificada que daí advém quase qualquer tipo de organização formal de governo funcionará eficientemente; mas se isso não se verificar, nenhuma elaboração e padrões formais de governo, nenhuma multiplicação de lei, produzirá um Estado eficiente ou cidadãos satisfeitos’.

Nesta afirmação de Lessa, ficam demonstradas ao menos duas situações importantes que teriam influenciado grandemente o entendimento do “gauchismo” ao longo dos anos. A primeira seria o surgimento do tradicionalismo como um movimento antagônico aos intercâmbios culturais que começavam a ser mais fortemente sentidos em meados do século XX, consequência do pós-colonialismo e da Segunda Guerra Mundial. Outra se refere à tentativa de uniformizar todos os indivíduos locais sob uma mesma cultura e mesmos interesses, com a finalidade de obter uma “organização social de governo”, e um Estado eficiente, ou seja, o mesmo que buscava o ideal nacionalista. Assim, podemos compreender a tentativa do movimento em padronizar a identidade do “gaúcho” para todas as regiões do estado.

Pensando em novas composições musicais...Atualmente se faz folclore no Rio Grande do Sul?


Do ponto de vista trazido aqui, podemos dizer que não! Faz-se canções inspiradas em algumas identidades gauchescas que se construíram no decorrer dos anos. Já que folclore está ligado a "raízes" e a "culturas primitivas", usar este termo para as composições que hoje alimentam a indústria fonográfica ou que participam dos festivais de música inédita (nativista) pode ser no mínimo arriscado.

O compositor Carlos Catuípe, um dos idealizadores do “movimento litorâneo”, afirmou em reportagem realizada por Gilmar Eitelvein no ano de 1991, que inspirou-se no folclore afro-açoriano da região litorânea para compor canções e estabelecer um movimento diferente da construção homogeneizadora do gaúcho da região da campanha, por exemplo. Segundo Catuípe, em entrevista: 

Estamos pesquisando os grupos de maçambique e terno de reis em Osório há uns cinco anos, desde que cheguei aqui comecei a acompanhar os grupos locais e os festivais nativistas, aí pensei em aproveitar o folclore dessa região para moldar uma nova música popular para o sul. O nativismo é meio elitista, sinto que nosso povo não consome nossa música (...). A cultura negra não é muito forte aqui, pela própria formação do estado. Me apaixonei pelo maçambique, seus tambores e seu ritmo e falei para o Ladislau escrever em cima disso, pegar as quadras, respeitar o ritmo original e criar algo o mais popular possível. (ZERO HORA, 26/04/91)

Imagem da pesquisa "Músicas do Brasil" de Hermano Vianna
Mais recentemente o antropólogo Hermano Vianna, encabeçou um projeto intitulado "Músicas do Brasil", que de uma forma menos cristalizada que os folcloristas de meados do século XX, efetuou gravações musicais de diversas partes do Brasil, mostrando a incrível diversidade cultural. Uma das muitas contribuições na forma que o pesquisador aborda é o conceito de circulação e rede que estariam justapostas as culturas populares. 

Tudo circula: pedaços de melodias; versos; instrumentos musicais; detalhes de indumentária; trechos de encenações teatrais. Cada mestre de brincadeira, ou cada brincante, não atua como o espectador passivo de uma tradição secular sobre a qual não tem nenhum controle e só pode “preservar”. Seu papel é mais de um DJ, ou qualquer outro produtor musical cibernético, que faz suas próprias colagens a partir de determinado repertório: o gigantesco e multiforme banco de dados da biodiversidade brincante brasileira. Cada mestre recompõe os elementos de todas as outras brincadeiras. Não existe, portanto, problema de origem. (...) Existe um espaço de brincadeira no Brasil. Esse espaço, como o ciberespaço, tem a estrutura de uma rede, uma rede interbrincadeiras. 

É interessante pensarmos que além das questões sobre o folclore que raramente perpassam os debates sobre ser domínio público ou autoral, ser de tradição oral ou gravada, ou de ter um certo tempo para que possa ser considerada “folclórica”, o debate que traz é sobre como a cultura está ligada a finalidades mais “leves”, do que as restritivas trazidas pelo conceito de folclore. Ou seja, as danças, músicas, encenações, devem existir para o desfrute do povo e não para colocá-las em visões limitantes.

O argumento dos folcloristas tradicionais seria de resguardar a cultura popular para que não se perca, e sobre isso Hermano também traz uma bela reflexão:

Cada brincadeira é um nó da rede, estando assim interligada a todas as outras brincadeiras. O erro de muito preservacionista bem intencionado é achar que para salvar um folguedo da ameaça de desaparecimento é necessário isolá-lo do resto do mundo, mantendo à força sua “verdade” ou “autenticidade” (uma idéia avessa à mistura e a “circulação”). Como os militares estrategistas que inventaram a Internet perceberam o que é preciso “preservar” é a rede, a capacidade das informações circularem dentro da rede, e não um nó específico. Numa rede “saudável”, a destruição de um nó não é ameaça para o todo: as informações encontram logo outros caminhos para fazer novas parcerias, novas ciberbrincadeiras.  (...) Muitas vezes é nessas brincadeiras que são renegociadas algumas das características mais centrais daquilo que se convencionou chamar de “identidade nacional” ou “Raízes do Brasil”. Optar por pensar o “espaço da brincadeira” como uma rede, é também fazer um esforço para encarar o problema da identidade em outros termos, fora da procura de “raízes”.

Como foi colocado por Felipe Alvarez, músico e doutorando em educação, ao responder também a questão da fanpage: “Será que no mundo que vivemos conseguimos fazer uma música popular sem usar elementos do folclore, ou ao contrário, será que conseguimos encontrar música folclórica “pura”? Penso que buscar “solidez” nos conceitos sobre o que é cultura é buscar por aquilo que a cultura não é, ou seja: uma prática social estática!”. Da mesma forma o músico e mestre em letras Vinícius Brum, em sua coluna no Jornal Zero Hora, instigado pela discussão trazida aqui sobre o folclore, afirma: “a substância folclórica foi fundamental para a formação deste mosaico cancionista que hoje temos”.

Devido a complexidade do tema, finalizo este texto deixando-o em aberto, com uma posição no mínimo interessante sobre os termos “folclore” e “cultura”, trazidos pelo ex Ministro de Cultura e músico Gilberto Gil:

O que entendo por cultura vai muito além do âmbito restrito e restritivo das concepções acadêmicas, ou dos ritos e da liturgia de uma suposta "classe artística e intelectual". Do mesmo modo, ninguém aqui vai me ouvir pronunciar a palavra "folclore". Os vínculos entre o conceito erudito de "folclore" e a discriminação cultural são mais do que estreitos. São íntimos. "Folclore" é tudo aquilo que – não se enquadrando, por sua antigüidade, no panorama da cultura de massa – é produzido por gente inculta, por "primitivos contemporâneos", como uma espécie de enclave simbólico, historicamente atrasado, no mundo atual. Os ensinamentos de Lina Bo Bardi me preveniram definitivamente contra essa armadilha. Não existe "folclore" – o que existe é cultura. 


Até a próxima!

Referências:
Colaboradores: Sabrina Manzke, Felipe Alvarez e Vinícius Brum.
EITELVEN, Gilmar. Tafona e Candeeiro na mesma semana. Zero Hora, Porto Alegre. 26/04/91.
OLIVEN, Ruben George. O renascimento do gauchismo. IN: GONZAGA, Sergius; FISCHER, Luís Augusto. (Orgs.). Nós, os gaúchos. Porto Alegre: EDUFRGS, 1998.
VIANNA, Hermano. A circulação da brincadeira. Disponível em: www.overmundo.com.br/download.../a-circulacao-da-brincadeira-em-pdf.