segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A Indústria da Música Gauchesca (parte IV): O regionalismo como tendência global


Um dos principais questionamentos surgidos com a série de textos sobre a indústria da música gauchesca, que finaliza nesta quarta parte, foi o entendimento controverso sobre como representar-se gaúcho sonoramente para ser entendido pelo público consumidor e adquirir espaço midiático. Uma interessante reflexão trazida pelo leitor Tiago Ferreira ao compartilhar o terceiro texto, foi: “Cresci ouvindo as discussões sobre tornar a música regional gaúcha mais bem elaborada e poética pra atingir um público maior, agora a realidade é o contrário?”.

Então, vamos começar com esta discussão. O que o leitor afirma é que durante décadas a música gauchesca procurava se “intelectualizar”, sair do estigma de “grossura” para poder tornar-se mais acessível ao público urbano, e hoje, como vimos a partir das falas de alguns músicos e compositores, o panorama teria se contraposto. Este “refinamento musical” é um dos principais motivos pelo qual os pesquisadores dão para o surgimento dos festivais de música nativista na década de 70. Cícero Galeno Lopes aponta, em texto publicado na revista Hífen (PUC – Uruguaiana, 1987), que os festivais nativistas surgiram como reação à invasão da cultura estrangeira do país e da música popular gauchesca, que cada vez mais conquistava espaço:

(...) procurava-se esconder a música então representativa comercialmente no Rio Grande. Essa música detinha, como manifestação artística, a simpatia popular. Pois também contra essa se ergueu a Califórnia. Melhor: contra a figura do gaúcho, então editada, que considerou distorcida e aviltada. Esteticamente, pois, a Califórnia optava por valores da classe média. E se estabelecia numa dicotomia antagônica. Se por um lado se erguia contra os estrangeirismos da massificação dos meios de comunicação ‘de massa’, por outro se opunha ao que de mais popular havia. Mas esse popular, representava o aviltamento urbano da figura presente no campo, que simbolizava a própria conservação das insígnias do passado histórico e mítico.

É interessante pensarmos como uma fatia da música gauchesca sempre esteve mais voltada à erudição do gauchismo, como uma busca velada em afastar-se do popular, e ir contra os estereótipos construídos em cima de  características identitárias mais rudes. Tanto assim, que em mais de quatro décadas de festivais de música nativista, atualmente os artistas muitas vezes buscam este elo perdido de contato com o público.

Desenho feito pelo artista Théo Gomes.
(Disponível para venda em: https://www.facebook.com/theogomess?fref=ts )

Também, é relevante pensarmos que o panorama atual quanto ao gosto musical do público talvez tenha sido construído a partir de décadas de evidenciamento de características estereotipadas do gauchismo, evidenciadas na maioria das vezes pela mídia. Foi declarado por parte dos participantes do segmento, em entrevistas realizadas no ano de 2013, que há um espaço consolidado atualmente para a música gauchesca, porém que atue sob os mesmos rótulos triviais relacionados com a cultura gauchesca.

Vemos então que o aumento da preocupação com o resgate da “verdadeira música gaúcha”, a partir da pretensa autenticidade expressa através de elementos sonoro-musicais e seus discursos, podem ser frutos de correntes de pensamento contemporâneas. Podemos constatar que estamos vivendo um período no qual há um evidenciamento maior às regionalidades, uma contrapartida aos movimentos de globalização e de uniformização, valorizando atualmente as características locais dos conjuntos sociais. Isso pode ser interpretado a partir de uma citação do sociólogo Bauman (1997) quando se refere que sofremos um “mal estar na contemporaneidade”, momento em que se buscou compreender quais são as “raízes culturais” e os elementos construtores de nossas identidades.

Nesta busca por “de onde viemos” é que certamente muitas justificativas e mitos sejam construídos, e diversas interpretações rígidas sejam mantidas. Foi dito por alguns músicos entrevistados o quanto se pode ousar em relação às mudanças musicais, e constatou-se que até mesmo os entendimentos mais “abertos” sobre a música gauchesca, dizem claramente que não poderia perder-se a “raiz” que identificaria a “música gaúcha” como tal.

Ao questionar o músico Luiz Carlos Borges sobre sua opinião quanto a novas concepções harmônicas, de arranjos, de vocais e de instrumentação, pergunto: “és adepto da visão de que a cultura deve ser mantida, e que esta abertura maior poderia perder a identidade da música gaúcha, ou acha válida a renovação?”, ele responde da seguinte forma:

Sou sempre favorável e adepto à abertura e inovação, especialmente na harmonia e no arranjo, porém, desde que se tenha conhecimento básico da raiz do que se está tratando. Falei numa entrevista e venho repetindo desde 1982 (ano em que comecei a dar-me conta e observar algumas reações mais atentamente): Só deve ter medo de alçar vôos, quem não tem a base (o aeroporto) para a aterrissagem de volta! Aquele que tenta inovar sem conhecer a raiz, corre o risco de ficar girando milhões de voltas e não conseguir voltar e parar na estação de onde partiu! Aquele que conhece a raiz, não fere a identidade.
 
Luiz Carlos Borges Foto: divulgação


Ainda em entrevista com Luiz Carlos Borges, pergunto: “Como manter-se ativo na indústria cultural fazendo música regional? Como é o interesse a esta música fora do estado?”, e a resposta foi:

Para manter-se ativo basta ser verdadeiro, espontâneo, persistente, evoluir sempre mas mantendo a ligação direta com a raiz, além de se fazer muito Importante hoje em dia, saber usar a "mídia", a comunicação, uma vez que vivemos numa constante dinâmica de transformações. Dá para dizer que está mais fácil agradar e encantar plateias fora do estado que dentro dele. O público de fora do estado é mais curioso e cobra bem menos a classificação de estilos. Um mesmo público aplaudirá com muito emoção a música romântica de Wilson Paim e a expressão mais sulina e campeira de uma parceria de Marenco e Jayme Caetano Braun. Ou seja, para eles não faz muita diferença ser da linha Nativista, Campeira ou Livre, basta ser Música Gaúcha.

Como vimos, atualmente a valorização das regionalidades dá margem para trabalhos estarem inseridos em uma demanda global, como forma de diferenciação das uniformizações características da cultura contemporânea. Apesar da criação do gosto musical ter sido concebida para ter-se um público não tão aberto a mudanças, vemos que os artistas que mais se destacam hoje conseguem dialogar com suas características culturais locais de uma forma modernizante, trazendo a música à sua contemporaneidade na forma sonora ou com visões atuais dos aspectos de produção. Neste dinamismo a cultura se transforma, se adapta, permanece, e sob algumas interpretações, evolui, como a frase célebre do cantor pernambucano Chico Science, ícone do movimento contracultura denominado como mangue beat, que buscava misturar ritmos regionais, como o maracatu, com o rock e o hip hop: “modernizar o passado é uma evolução musical”.