domingo, 6 de julho de 2014

Nacionalismo, regionalismo e transnacionalismo

Talvez seja dispensável dizer que as identidades gauchescas recorrentemente criam certa polêmica na mídia, e que mais uma vez isto ocorreu. Pois bem, devido a busca por respostas que levam a diversas compreensões deste assunto foi desenvolvido este ensaio, com a finalidade de estreitar as discussões sobre o tema e incitar o debate.
Pensando nas identidades como negociáveis e mutáveis, como afirmam diversos autores pós modernos, seria interessante compreendermos como elas foram construídas no Rio Grande do Sul, certo?
O principal modelo construído quando se fala no regionalismo rio-grandense é baseado em um passado, localizado na região pastoril da Campanha, no sudoeste do Rio Grande do Sul e na figura real ou idealizada do gaúcho. É em torno desse eixo que giram os debates sobre a identidade gaúcha. Atualmente, a construção dessa representação recoloca a questão em um novo patamar já que estamos numa época em que o Brasil apresenta uma maior integração política, econômica, dentre outros aspectos, articulando suas regiões de uma forma efetiva.

Recorrendo a historiografia



Como expõe a historiadora Ieda Gutfreind (2000), a historiografia oficial gaúcha, referindo-se aos principais historiadores da temática Rio Grande do Sul (Rosa, 1956 e Vellinho, 1975) no século XX, possuía uma perspectiva de fronteira sempre ameaçada, que consequentemente influenciariam os entendimentos de regionalidade gaúcha na atualidade. Os argumentos desta historiografia citada por Gutfreind colocam em evidência a distinção entre o gaúcho rio-grandense e o gaúcho platino, entendendo a fronteira como muralhas pelas quais a comunicação e influência cultural não aconteceriam. Segundo Gutfreind, Othelo Rosa representa uma significativa comunidade de intelectuais, alguns o precedendo, outros tantos lhe sucedendo que, no afã de integrar o RS ao Brasil, em um clima marcadamente nacionalista, minimiza ou mesmo ignora, influências espanholas na área da fronteira do RS com o Prata. Segundo ela "Othelo Rosa está posto como símbolo de uma ampla comunidade que tem, na produção historiográfica de Moyses Vellinho, a finalização do discurso que construía uma identidade brasileira para o Rio Grande do Sul". (p.4)
Para Moyses Vellinho, rivalidades advindas da Península Ibérica “velhas de muitos séculos” (p.202 apud Gutfreind, p.4) haviam cruzado o Atlântico. Eram dois mundos inimigos: espanhóis castelhanos X luso brasileiros com interesses vitais díspares, duas civilizações rivais que provocavam mobilidades nas fronteiras com avanços e recuos ora de um lado, ora de outro. Consequência direta do quadro teria sido o desenvolvimento de um estado de consciência política de cunho nacional”, ou seja, os rio-grandenses tornaram-se mais brasileiros que os demais habitantes do país: “Foi assim, por um imperativo de circunstâncias históricas, que se formou o que se pode chamar ‘espírito de fronteira’, o qual marca tão substancialmente a psicologia do homem típico do Rio Grande do Sul” (GUTFRIEND, 2000).
Conforme a historiadora esta seria uma contradição imensa, pois, “negando o papel de uma fronteira, é criado o homem fronteiriço, representante do gaúcho brasileiro que transita e se amolda, com naturalidade, em qualquer estado do Brasil, integrando a tudo e a todos” (p.5). Certamente a interpretação da historiadora sobre os estudos de fronteira do Rio Grande do Sul, nos levam a compreender como ainda a identidade do gaúcho “autêntico” está ligada com a fronteira, a partir do entendimento que os habitantes dos limites fronteiriços são “mais gaúchos” que os do restante do estado, pois receberam todas as influências desta fronteira zona, além de possuírem da historiografia argumentos que o colocam como os principais responsáveis por assegurar a segurança regional, e principalmente nacional.
Ainda sob a visão do gaúcho como representante da identidade nacional, está a criação do Movimento Tradicionalista Gaúcho, baseado e inspirado na corrente positivista. Ruben Oliven afirma que em 1954 Luiz Carlos Barbosa Lessa, um dos fundadores do 35 CTG, apresentou a tese O sentido e o valor do Tradicionalismo, que se tornou a tese-matriz do Movimento Tradicionalista Gaúcho, baseada em dois livros que conheceu quando frequentou a Escola de Sociologia e Política em São Paulo. Os livros “Teoria e pesquisa em sociologia” (1945) do norte-americano Donald Pierson, e “O homem” (1936) de Ralph Linton, foram os principais inspiradores de Lessa ao fundamentar o movimento.

Então... um tradicionalismo nacional?



De acordo com Oliven, “ambos os autores estavam preocupados com os efeitos do crescimento da população, as conseqüências da urbanização e as modificações na família e nos grupos locais, problemática recorrente nas ciências sociais da época, fortemente influenciadas pelos trabalhos de Durkheim, escritos na França no século XIX”. Em 1943, Ralph Linton definiu o nativismo como "qualquer tentativa consciente e organizada, por parte dos membros de uma sociedade, de reavivar ou perpetuar aspectos selecionados de sua cultura" (1943, p.220).
Nesta caso ficam demonstradas ao menos duas situações importantes que teriam influenciado grandemente o entendimento do “gauchismo” ao longo dos anos. A primeira seria o surgimento do tradicionalismo como um movimento antagônico aos intercâmbios culturais que começavam a ser mais fortemente sentidos em meados do século XX, consequência do pós-colonialismo e da Segunda Guerra Mundial. Outra se refere à tentativa de uniformizar todos os indivíduos locais sob uma mesma cultura e mesmos interesses, com a finalidade de obter uma “organização social de governo”, e um Estado eficiente, ou seja, o mesmo que buscava o ideal nacionalista. Assim, podemos compreender a tentativa do movimento em padronizar a identidade do “gaúcho” para todas as regiões do estado. Também é desta vertente de pensamento que afirmam-se as questões morais ligadas ao entendimento de “gauchismo”. Lessa afirma que as qualidades do gaúcho são: “franqueza nas atitudes e nas palavras, o narcisismo, a bravura quixotesca, a instantaneidade impulsiva das resoluções, a veemente vocação cívica, a altanaria, o bom humor, mesclado a irreprimíveis explosões sentimentais e fatalistas” (LESSA, 2008, p.54-55), características geradas juntamente com o ideal construtor da sociedade.
O movimento tradicionalista compartilhava a ideia de que a família, a pátria e a humanidade eram valorizadas e vistas como os pilares da sociedade. Este entendimento da identidade gaúcha vista como identidade nacional no século XX, é que ocasionou a constituição do Movimento Tradicionalista Gaúcho, na década de 40, diferente do entendimento da atualidade que coloca o pertencimento gaúcho e a “identidade gaúcha” por vezes antagônica ao restante do país.  

O Rio Grande do Sul e o Brasil



Porém, nas últimas décadas voltaram à tona os debates sobre a separação do Rio Grande do Sul do Brasil, e o sentimento de nação dentro do estado. Sobre esta relação de alteridade com o restante do país, o antropólogo Roberto Da Matta afirma:

Inverter é uma reação natural de outras sociedades. Ainda mais quando se trata do gaúcho, que tem uma identidade à frente de seu tempo – porque é moderna, individualista, autônoma. Isto perturba o restante dos brasileiros. Outra coisa que incomoda: o fato de o gaúcho gostar demais do Rio Grande do Sul, e não ter medo de falar que seu estado é melhor. O brasileiro tem problemas com quem ama a sua terra. Quem gostava do Brasil, antigamente, era de direita – a esquerda sempre foi uma crítica severa do país. Uma identidade é construída em oposição a outras, e é justamente esse oposto que é o ressaltado por quem é ‘estrangeiro’. (p.9)

A partir da resignificação das últimas décadas para um entendimento de uma fronteira zona, o “gaúcho” passa a ser entendido como identidade regional e não mais nacional, assumindo ligação maior com os países vizinhos do que com o restante do país. Sobre esta questão identitária do Rio Grande do Sul, DaMatta (2003) afirma:
O Rio Grande talvez tenha essa preocupação por causa de sua história dentro da história do Brasil. Foi um território marginal por muito tempo, foi incorporado a um Brasil já um tanto constituído. No fundo, o simbolismo do Sul é mais problemático que o do Norte, pois os nordestinos são muito mais familiares para os brasileiros. (p.9)
Os diálogos entre global e local, cada vez mais recorrentes em tempo de globalização, refletem-se nos temas discutidos contemporaneamente. O processo atual também possibilita uma maior circulação destas identidades locais, através das facilidades dos meios de comunicação. Em um processo de mundo “interconectado”, como cita Pelinski (1997), também as formas locais se fortalecem como meio de manter-se, fato que podemos perceber nas performances musicais recorrentes na atualidade, dentro do segmento gauchesco.


A mídia reforçando/ construindo estereótipos



Nas últimas décadas se consolidou um forte mercado de música regional que dificilmente atravessa as fronteiras do estado, causando inúmeras indagações por parte da classe artística por não ver perspectiva de seus trabalhos serem reconhecidos em nível nacional, tanto que para os nativos deste campo virou senso comum dizer que “a música gaúcha não sobe”. Por outro lado, atualmente vê-se uma valorização das características locais, como forma de diferenciar-se das uniformizações do mercado da música mundial. Sinais disso são os editais de incentivo a cultura, advindos de leis estaduais e nacionais, que objetivam valorizar características locais dentro de uma imaginada identidade brasileira e da criação de categorias regionais dentro de alguns prêmios de música no país e na América Latina.
Essas questões não podem ser simplesmente respondidas considerando apenas as formas de produção da indústria cultural, nem tampouco apenas os textos midiáticos. É preciso, no dizer de Johnson (2000), entrar no circuito da produção, dos textos (produtos), das leituras (recepção) e das culturas vividas. Vemos atualmente como a reprodução desta identidade mítica gauchesca é apresentada em performances musicais de programas especializados do segmento, no uso de vestimentas características que também remetem ao um tempo mítico, imaginado no passado, e alicerçado em discursos bairristas de super valorização das culturas locais e de marcos histórico fundadores da construção deste regionalismo, como o grande evidenciamento dos meios de comunicação local à Semana Farroupilha. Vale lembrar, nas palavras de Albuquerque Júnior (1999, p. 23), que as linguagens (música, cinema, teatro, pintura, etc.) “não apenas representam o real, mas instituem reais”. Procura-se, dessa forma, apreender o fenômeno musical para além de seu efeito lúdico, buscando entendê-lo também como elemento de (re)produção de realidades sociais (conservando ou modificando-as).
Assim, fica a reflexão: será que atualmente no Rio Grande do Sul não há uma constituição de bens materiais e simbólicos (performáticos e sonoros) que reforçam sentimentos bairristas e dão margem a interpretações separatistas?


Referências:


ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do nordeste e outras artes. Recife: Fundação Joaquim Nabuco/ Massangana. São Paulo: Cortez, 1999.
DAMATTA, Roberto. Os gaúchos versus o Brasil. Revista Aplauso. Ano 6. Nº 12. 2003.
GUTFREIND, Ieda. Revisões historiográficas na temática da fronteira sul-riograndense: historiadores municipalistas na prática da oralidade. Anais Eletrônicos do IV Encontro da ANPHLAC. Salvador – BA.  2000 Disponível em: http://anphlac.fflch.usp.br/sites/anphlac.fflch.usp.br/files/ieda_gutfreind.pdf Acesso em: 10/05/14.
JOHNSON, Richard.  O que é, afinal, estudos culturais? In: SILVA, Tomaz Tadeu da. O que é, afinal, estudos culturais? Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. 2ª Ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
OLIVEN, Ruben George. O renascimento do gauchismo. IN: GONZAGA, Sergius; FISCHER, Luís Augusto. (Orgs.). Nós, os gaúchos. Porto Alegre: EDUFRGS, 1998.
PELINSKI, Ramón. Etnomusicología en la edad posmoderna. 1997. Disponível em http://www.candela.scd.cl/docs/pelinski.htm (acesso em 02/05/2014)