quarta-feira, 30 de março de 2016

Sororidade, manas!






Após a repercussão com o artigo "Até quando só eu lírico masculino? Sobre o Festival da Barranca e a proibição de mulheres há 45 anos" gostaria de discorrer brevemente sobre o feedback que tenho recebido. Desde a postagem, na última sexta-feira, tive oportunidade de conversar sobre o tema com diversas mulheres que entraram em contato através das redes sociais. Tem sido impulsionador perceber que há mais vozes dissipadas por aí, silenciadas pela falta de referência e/ou oportunidade.

Sabia quanto ao risco de críticas, pois o tema abordado ainda é um tabu na nossa cultura, e para muitos quando se fala em reivindicação de espaços femininos, ainda costuma-se subverter o nosso discurso, ou ignorá-lo. No entanto, acredito que alcancei o objetivo que era suscitar o debate, utilizando o Festival da Barranca como mote para tais reflexões. A partir dessa discussão outro objetivo, o mais crucial, também foi alcançado: empoderar as gurias a se expressarem!

Foi de extrema importância o compartilhamento e apoio de vários homens, de diversas idades, que respeitam e entendem a causa, apesar de não vivenciarem diretamente o que passamos. Isso mostra como é possível e realizável colocar-se no lugar do outro. Senti nosso grito fortalecido através do compartilhamento de mulheres atuantes no segmento da música gaúcha como Adriana Sperandir, Juliana Spanevello, Paola Matos, Clary Costa, Analise Severo, Susane Paz, Sabrina Antunes e Maria Luiza Benitez. À vocês, meu respeito e gratidão!

Portanto, ter o apoio de tantas mulheres, artistas ou não, que partilharam das ideias do texto é que penso na concepção de sororidade. Para quem não sabe, sororidade, é o feminino de fraternidade (ambas palavras vêm do latim, sendo sóror = irmãs e frater = irmãos.) Na nossa linguagem usual, ficamos apenas com a versão masculina do termo, afinal de contas, a sociedade patriarcal nos ensina que relações harmoniosas somente são possíveis de se concretizarem entre homens. Mas não são!

Sororidade é uma experiência subjetiva entre mulheres na busca por relações positivas e saudáveis, na eliminação social de todas as formas de opressão. Também busca apoio mútuo para alcançar o empoderamento de cada mulher. A sororidade é a consciência crítica sobre a misoginia e é o esforço tanto pessoal quanto coletivo de destruir a mentalidade e a cultura misógina, enquanto transforma as relações de solidariedade entre as mulheres.

Dessa maneira, descobrir quanto podermos crescer juntas é incrível! Nessa onda, o blog se coloca como um espaço de troca de experiências, de diálogos, de conhecimento. Assim, a ideia é trazer dicas sobre formas de compor, cantar, tocar um instrumento, desenhar, escrever, fotografar e outras coisas. Além de elucidarmos, como referência, outras mulheres artistas e intelectuais. 

Enfim, das muitas opiniões complacentes ao texto que foram expostas, uma me tocou de forma especial. Foi o depoimento da amiga e musicista Giovanna Mottini, com ele aproveito para encerrar o texto e agradecer à todos.

quando eu mudei minha vida descobri que: posso tocar um instrumento;
posso cantar sem competição;
posso achar um homem interessante sem ter nenhum interesse sexual;

posso me vestir com pureza;
posso olhar para outras mulheres, achá-las bonitas e ser companheira;

que homens e mulheres se dão muito bem em um mesmo lugar;

que pudor é coisa de igreja;

e tem noção que muita gente acha tudo isso aí impossível?


Um comentário:

  1. Exatamente, precisamos que a massa fique homogênea, esse ponta pé nos despertou muitas questões, que até mesmo pela conformidade de não ser escutadas, se oculta no decorrer dos anos e aos poucos vai ceifando o pouco que ainda temos. Com a evolução das mídias, do comportamento dos nichos em seus propósitos, da busca por resultados instantâneos com o avanço que as tecnologias nos trouxeram, é contraditório dizer que não há mais nada a se fazer, Gurias! Não! Tem sim, muita coisa a se fazer! inclusive com mais facilidade que há 45 anos atrás... temos ferramentas como essa, que nos permitiu o debate. Antes de mais nada, acho que poderíamos criar um fórum com alguns assuntos aleatórios, que motivariam essa esquiva, para poderemos montar um gráfico estratégico. Desde já, minha sugestão de assunto é: Qual foi o momento e o que eu estava fazendo quando percebi um preconceito?

    Sobre um momento meu:

    Cito um dos momentos, que fui convidada a cantar ''uma música'' em um palco de semana farroupilha, e já em cima dele fui ''desconvidada'' porque estava de vestindo bombacha. logo escutei a frase - isso não é coisa de mulher.


    beijos gurias, adelante!

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