quinta-feira, 24 de julho de 2014

Tradicionalismo, tá na hora de sair do armário!


Nos últimos dias ilustraram as páginas das redes sociais, além de alguns jornais do estado, mais algumas polêmicas envoltas nas questões da tão discutida “identidade gaúcha”. Desta vez o assunto do momento foi: Fazer ou não uma cerimônia de matrimônio homossexual coletivo em um Centro de Tradições Gaúchas?


A ideia da juíza Carine Labres, na cidade de Santana de Livramento, causou espanto e descontentamento por parte dos mais conservadores, que alegaram “não ser contra” o casamento gay, mas desde que não ocorresse em templos do tradicionalismo. Porém, sabemos que a prática de realizar casamentos (no caso, heterossexuais) em CTG’s é comum, e que estes eventos se realizam de uma forma muito bonita, e comemorada pelos integrantes do movimento. Então, será que não é o momento de ser superada essa questão?

Charge de Augusto Bier


Como está na matéria do jornal Zero Hora, escrita por Nelson Mariano, “os contrários se rebelam afirmando que tentam profanar um reduto da virilidade rio-grandense”, mas... de onde vem o mito que o gaúcho é machão?

Certamente o legado cultural da sociedade patriarcal sulina é presente até hoje nas ações e práticas da sociedade contemporânea. Como sabemos, as questões da identidade gauchesca estão diretamente ligadas com a masculinidade. Segundo o antropólogo Roberto Da Matta “a figura masculina é predominante nos locais que, como o Rio Grande, tem suas identidades forjadas pelas questões políticas. Os gaúchos foram republicanos antes do restante do país. E o que quer dizer ser republicano? Quer dizer igualdade perante a lei, ter uma constituição que vale para todos, etc. Esses elementos acabam determinando uma imagem de um cara que luta pelos seus direitos, é assertivo, fala alto – e que acabou simplificado como machão”.

Outra explicação para esta construção da identidade gauchesca relacionada ao gênero masculino pode ser entendida a partir das citações do historiador Hobsbawm, quando relaciona as construções de mitos ocidentais que tem em comum “serem gerados por um grupo social e economicamente marginalizado de proletários desarraigados”, afirmando: “Os grupos que geram com mais facilidade o mito heróico, suponho, são as populações especializadas em andar a cavalo, mas que, em certo sentido, ainda se mantêm vinculadas ao resto da sociedade; ao menos no sentido de que um camponês ou um rapaz da cidade possa imaginar a si mesmo como um caubói, um gaucho ou um cossaco.”

Este tipo de criação social imaginária não está presente exclusivamente na cultura gaúcha. Segundo o historiador, a constituição deste mito refere-se a uma fundamentação histórica secular, do mito do centauro, que teria influenciado enormemente a cultura ocidental através de características masculinas, pastoris e que possuem ligação com o cavalo. Para Hobsbawm “o que eles têm em comum é óbvio: tenacidade, bravura, o uso de armas, a prontidão para infligir ou suportar sofrimento, indisciplina e uma forte dose de barbarismo ou ao menos de falta de verniz, o que gradualmente adquire o status de nobre selvagem. Provavelmente também esse desprezo do homem a cavalo pelo que anda a pé, do vaqueiro pelo agricultor, e esse jeito fanfarrão de andar e se vestir que cultiva como sinais de superioridade. Acrescente-se a isso um distinto não intelectualismo, ou mesmo anti-intelectualismo. Tudo isso tem excitado mais de um sofisticado filho da classe média citadina.”

Tá ok! Agora podemos compreender porque a construção do mito está ligada com a masculidade. Mas quem sabe falemos de vida real agora?

O fato é que apesar das performatizações artísticas no meio gauchesco em geral atuarem sobre este estereótipo “do machão”, como se refere DaMatta, temos que falar francamente: igual a todas as esferas da sociedade, também no meio tradicionalista há pessoas de diferentes orientações sexuais, e não são poucas! (Alguma novidade até aqui?)

Arrisco dizer que as autoridades que se posicionaram contra este tipo de cerimônia nos Centros de Tradições não representam grande parte dos tradicionalistas, apesar de obviamente reconhecer que há um grande preconceito velado e pouco discutido ainda por toda a sociedade. As novas gerações que frequentam os grupos de danças (invernadas artísticas), dão um verdadeiro exemplo de igualdade e respeito a todas as orientações sexuais, estando somente em questão o prazer em dançar, tocar, cantar, performatizar o gauchismo artisticamente e em reunir-se aos amigos. Vale ressaltar que é este grupo de jovens que também certamente contribui para manter financeiramente o movimento!


Sei que em muitas pessoas causa espanto pensar que ainda estamos discutindo essas questões em pleno século XXI, onde até na esfera legal elas já estejam resolvidas. Porém, com otimismo acredito que as coisas estejam se modificando e que em breve estes temas sexistas não se tornem mais uma questão que ainda deva ser discutida no gauchismo.

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