segunda-feira, 28 de julho de 2014

A indústria da música gauchesca (Parte III): a estética musical do compor "gauchisticamente"


Atualmente, vemos uma grande parte  de artistas já incorporados no mercado musical que atuam a partir da busca pela autenticidade quando se fala em representações musicais gauchescas. Também é notória a existência de uma mídia  especializada voltada à valorização das identidades locais construídas e idealizadas no Rio Grande do Sul. A partir desta relativa segurança, quanto a um espaço na indústria fonográfica estadual, e de uma demanda da mídia local, muitos artistas acabam por limitar seus trabalhos, criando-os a partir de algumas características comuns quanto suas escolhas sonoro musicais. Nota-se que há uma aceitação para certo formato, que vai desde recorrentes temáticas das letras das canções, passando por mesmas escolhas harmônicas e de instrumentação, até a forma de cantar e comportar-se em suas performances, sendo que outro modelo, diferente desta fórmula, passa a não ser bem aceita para alguns integrantes da própria classe artística e até mesmo do público, que espera as composições gauchescas em uma estrutura e sonoridade já reconhecidas.



Em entrevista realizada com a cantora Juliana Spanevello, no ano de 2013, foi demonstrada esta preocupação com o mercado da música regional, juntamente com a busca de representação de uma identidade gauchesca, intrínseca na estética de seus trabalhos:

Quando fui preparar meu retorno a carreira musical com o Pampa e Flor, tentei usar o fato de que sempre tive ligação com o campo, e achava que esse seria um diferencial para mim enquanto mulher, poder focar na música mais campeira, e fazer com que toda a estética do meu trabalho (repertório, figurino, capa do disco, imagens expostas na mídia, etc... seguissem esse mesmo conceito. Eu enxergava um espaço comercial neste sentido. Não vou ser hipócrita em negar que pensei SIM no lado comercial do trabalho que estava sendo preparado. É óbvio que pensei e acredito que isso deve ser levado em conta. Eu acho de extrema ‘ingenuidade’, tu entrar no meio que tu quer entrar pra ser profissional e não pensar no lado comercial. Se tu não quer “vender” a tua ideia, então não lança ela, guarda pra ti. A música é um negócio como qualquer outro. As pessoas ainda tem vergonha de dizer isso e para mim isso não é vergonha. Isso pra mim tem outro nome, isso se chama “BOICOTE”! Se tu vai sobreviver do teu trabalho que é a tua música, porque tu não pode pensar na tua música como trabalho, como negócio também! No Pampa e Flor (2011), esse espaço tava meio aberto. Não tinha ninguém fazendo um trabalho mais focado na música campeira, e aí a gente achou esse viés e juntou vários aspectos, era uma coisa diferente, a música campeira estava e está em alta em função dos homens e não tinha nenhuma mulher nesse foco. A minha identificação com essas coisas foi um fator positivo que uniu as coisas que eu gostava com as coisas que eu estava sentindo cantando. Isso deu o tom de verdade naquilo que eu estava fazendo. A partir daí foi criado um conceito de trabalho.

Em seu relato fica demonstrada a aceitação positiva que a música gauchesca possui através do mercado que consolidou-se nas últimas décadas. Também nota-se que alguns compositores do segmento se preocupam em desconstruir possíveis estereótipos com novos entendimentos da tradição em suas composições. A grande maioria das obras musicais do gauchismo fala sobre o trabalho nas estâncias, o cavalo, e os demais elementos simbólicos que remetem ao estereótipo do gaúcho imaginado, também com características sonoras identificáveis. A cantora Juliana Spanevello, quando se refere a seu último trabalho discográfico intitulado Relíquia (2013), disse que por ser mais elaborado nas questões de arranjo musical e instrumentação, este não teve a mesma aceitação crítica do público que seu anterior trabalho intitulado Pampa e Flor (2011):

No Pampa e Flor a concepção musical foi pensada para ser violão acordeom, percussão (muito leve) buscando uma sonoridade bem folclórica. Nosso parâmetro era “voltar pra dentro”, pro folclore e marcar bem e mostrar “a que viemos”! Nosso trabalho é isso aqui!’. No ‘Relíquia’, embora o repertório siga a mesma linha de repertório do ‘Pampa e Flor’ (e o estilo musical é bem parecido) a concepção musical foi bem diferente. Foi experimentada outra fórmula, buscando elementos diferenciados através dos arranjos. Tem sax, tem flauta... toques muito sutis também com a preocupação de não deturpar, de não desvirtuar. O requinte me pareceu assustar as pessoas.


Álbum Relíquia (2013) - Juliana Spanevello


O exemplo trazido por Juliana mostra a aprovação não tão positiva a possíveis sonoridades análogas das usualmente conhecidas pelo público, apesar do trabalho estar alicerçado na estética das temáticas e performances gauchescas. Também sobre a questão do recorrentemente usual quanto à forma de compor "gauchisticamente", o compositor Juliano Gomes trouxe importantes afirmações, em entrevista realizada também no ano de 2013:

A nossa música tá inserida em um contexto de radicalismo, que quando se fala em música campeira tem que ter dois acordes só. Quando se coloca uma pontinha, uma nona, uma sexta, não é música campeira. E aí vem aquela pergunta, o que é música campeira? (...) Eu costumo dizer assim ó, tem muita gente que quer ser radical e fazer a coisa antiga e acha que com uma música só vai se fazer a música campeira e aí acabam escrevendo sobre o passado e fazendo música antiga, estilo antigo ‘assim que é o radical, assim que é a música campeira’. Só que tá ficando uma lacuna né? Tão cantando o passado e não tão cantando o nosso tempo, aí o teus neto vão perguntar assim ó: ‘tá, mas no teu tempo como que era vó?’ aí tu diz assim: ‘no meu tempo eu cantava os meus avós’ então ninguém tá cantando a era de 2000, de 90 para cá, o pessoal tá cantando de 80 para baixo. 


Juliano Gomes. Foto: Miza Limões

O cantor e compositor Lisandro Amaral, também em entrevista realizada no último ano, traz questões sobre as características sonoras mais identificáveis com o público e o mercado fonográfico. O músico afirma que é maior a aceitação para a música “mais campeira”, ou como ele denomina, “mais crioula”, argumentando que seu primeiro álbum, intitulado À moda antiga, por possuir características mais reconhecíveis da chamada “música crioula”, como ritmos de andamento mais rápido, tinha maior aceitação que seu trabalho atual, visto como mais elaborado e com composições de ritmos mais lentos.

No próximo disco vou fazer mais crioulo do que o À moda antiga. Eu tenho composições hoje que são tão crioulas quanto a de doze anos atrás. E por que vou gravar essas músicas? Não vai ser pra eu agradar os 60% de público que não deram bola pro Canto Ancestral, é para o pessoal que ouviu o Canto Ancestral entender que existe uma música crioula com ritmo mais forte que são boas e que dá para se ouvir e levar eles pra uma observação do mundo rural, que é Mano Lima, que é Baitaca, que é engraçado. Os 60% querem o ritmo. Rogério Ávila e Leonel Gomez fazem isso perfeitamente: poesia muito crioula, rebuscada, disfarçada de ‘gaúcho de bolicho’. A música do Rogério Ávila é disfarçada de fronteiriço, disfarçada não, é vestida! Ela capta toda essa gurizada que tá sentada no posto de gasolina.  

Álbum "À moda antiga" de Lisandro Amaral

Neste relato, Lisandro afirma que o público consome a “música campeira”, identificada como mais popular, devido a seus ritmos de andamentos mais rápidos, ficando em segundo plano a qualidade das letras, característica principal das composições campeiras trazidas nos últimos anos. Porém, como ele mostra no relato acima, existem composições com letras elaboradas e com ritmos movimentados, que é o que deseja desenvolver em seu próximo trabalho. Também no relato do compositor Juliano Gomes, percebemos como é forte a identificação do gauchismo com elementos tradicionais e pouco modificáveis, para que se possa dialogar com o público e mídia já estabelecidos. A questão sobre cantar o passado, certamente justifica-se com o caráter de resgate que possui a grande maioria das composições do segmento campeiro, alicerçadas no tempo mítico construído, já aqui referido. 

Certamente, o entendimento não permissivo em executar os ritmos do gênero musical gauchesco  de forma modificada, ou com modificados arranjos e instrumentações, fazem com que a cultura permaneça de certa forma imóvel, cristalizada, dificultando o diálogo com outros públicos, diferentes do já cativado pelo estereótipo construído. Quem pôde acompanhar esta semana o lançamento do documentário "A Linha Fria do Horizonte" (www.linhafria.com.br), talvez tenha se questionado sobre as questões trazidas pelo cantor Jorge Drexler, quando fala que sentia-se incomodado, como se estivesse blasfemando, ao executar ritmos do folclore, como a milonga, de forma híbrida. Porém, para ele a questão se resolve quando percebe que fazendo  esta apropriação, e levando a outros contextos sociais e performáticos estes ritmos, estaria fazendo com que o folclore se fortalecesse.



Como desenvolve o antropólogo argentino Nestor Canclini, sobre o conceito de hibridização, a cultura não pode ser entendida como estática para que permaneça viva. Ela está em constante adaptação e diálogo com os fatores de tempo e espaço, desenvolvendo a partir destes suas influências. 

Assim, podemos compreender como são grandes as complexidades do fazer musical no Rio Grande do Sul, interligado à questões ideológicas permissivas ou repressivas. Talvez isto ocorra devido a nossa posição geográfica, de características culturais análogas com o restante do país (no viés interpretativo de Vitor Ramil, sob a Estética do Frio), pelo qual tem-se que sempre justificar as diferenças culturais em oposição a uma uniformização. Ou talvez, por que nossas construções identitárias, que sempre estão colocadas em cheque, tenham construído interpretações rígidas nas quais até hoje os artistas que buscam modificá-las acabam sofrendo esta resistência. 

Não terminaremos este assunto aqui! Afinal, esta complexidade é o que motivou a criação deste espaço. Na próxima semana teremos o quarto e último texto da série "A indústria da música gauchesca", discutindo sobre os regionalismos como uma tendência mundial da pós modernidade.




Um comentário:

  1. Excelente trabalho, Clarissa. E tens razão quando dizes que o assunto não se esgota por aqui. Há ainda muito pano pra manga e muita sanga pra rolar por debaixo da ponte.
    Eu mesmo tenho desenvolvido algum questionamento através de depoimentos pessoais de vida, tentando analisar a música tradicionalista pela ótica de quem nasceu e foi criado no meio urbano, constatando que 85% da população gaúcha atual está nas cidades.
    Convido-te, e aos demais leitores do teu blog, a acessar gutoagostini.blogspot.com, para trocarmos ideias por lá também. Parabéns e um abraço.

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