terça-feira, 22 de julho de 2014

A indústria da música gauchesca (Parte II): entre bens materiais e simbólicos

Ao frequentarmos alguns eventos de cunho gauchesco no Rio Grande do Sul, como o Acampamento Farroupilha na cidade de Porto Alegre, ou o Rodeio Internacional da cidade de Vacaria, podemos nos surpreender como a “identidade gaúcha” é ali representada e performatizada. Há uma construção de paisagens, visuais e sonoras, que nos deslocam para um tempo idealizado no passado, provavelmente um tempo mítico ali encenado. No entanto, o responsável por trazer-nos de volta a 2014, e desligar esta “viagem no tempo imaginário”, é o forte comércio. Inúmeras bancas, muitos produtos relacionados com o gauchismo, como roupas, CDs e acessórios. Diversas ofertas e numerosos consumidores! Belos exemplos para compreendermos a dimensão de como a construção das identidades gauchescas movimentam recursos financeiros, e como é elevado o número de pessoas trabalhando com este comércio que se constituiu.

É inquestionável como a pretensa identidade gauchesca, e os bens materiais e simbólicos inspirados nela, estejam interligados. A respeito disto trago algumas importantes declarações provenientes da etnografia realizada no ano de 2013, com alguns artistas do segmento. Ao conversarmos sobre o mercado da música regional gauchesca, o cantor Joca Martins traz a seguinte opinião:

Eu acho que a questão comercial no Rio Grande do Sul é muito mal resolvida. O cara que é domador, ou ginete do freio de ouro, está fazendo aquele trabalho ali pra seu sustento. Então, se ele pode ter dez cavalos na final do freio de ouro, melhor. Isso é uma competição comercial e esse cara não deixa de ter o amor pelo cavalo, pelo o que ele faz, pelo campo, e ele não é criticado. Esse cara é gaúcho, ele leva pra todo o Brasil a cultura gaúcha, tem todo o jeito da equitação gaúcha. Eu não to querendo que critique esse cara, eu estou querendo dizer que aqui criticam quando tu diz: ‘Ah, eu to fazendo essa música pra tocar no rádio, quero ver se vai rodar bastante’, aí tu é meio que criticado por estar pensando comercialmente. Essa questão está mal resolvida, sabe? (...) Tu pode com alegria e com uma baita produção não perder a essência. A gente foi participar de um evento musical fora do estado com o César Menotti e Fabiano, olhamos aquilo lá e pensamos: ‘Nós estamos a duzentos anos atrás’. É a estrutura e as condições de trabalho que os caras têm, as equipes de cada um, tudo é muito distante da nossa realidade.
Joca Martins e a dupla César Menotti e Fabiano em uma de suas apresentações juntos. Foto: divulgação


A partir do relato do cantor é notável como a conjuntura do mercado musical do estado é díspare se comparada com o mercado nacional da grande mídia. Entretanto, apesar da diferença, é notável uma grande consolidação do mercado da música regional no Rio Grande do Sul, estabelecendo-se espaços de audiência para os artistas da música deste segmento. Díspares também certamente são as questões de profissionalização do mercado de produção cultural quando se fala na música gauchesca. Enquanto as grandes produções cada vez mais ganham público devido ao investimento em produção cênica, iluminação, e demais fatores que chamam a atenção de diferentes públicos receptores, grande parte das produções da música gauchesca ainda lidam com um sistema precário e bastante comum, aquele cenário que o público certamente reconhece, como: pelegos enfeitando cadeiras, palas tapando caixas de som, e alguns acessórios como laços, e rodas de carreta, (gentilmente cedidos por alguma correaria), isso sem entrarmos na questão de cachês, condições de divulgação, de sonorização, etc..

Talvez esta questão se dê devido aos baixos valores de investimento nestas produções, ou também devido à falta de ousadia por meio dos agentes deste meio. Também nos relatos de Joca Martins podemos observar como as questões da cultura gauchesca são tidas como invioláveis para alguns, e como algo que deve ficar à parte das questões de mercado de trabalho e da indústria cultural.

As músicas regionais foram transformadas à medida que seu conteúdo simbólico foi sendo assumido pelos novos meios de comunicação. A midiatização da tradição dotoulhe de uma nova vida, libertando-a das limitações da interação face a face, além de revesti-lo de novas características. As tradições, no caso musicais, se desritualizaram, pois perderam sua ancoragem nos contextos práticos da vida cotidiana. Mas o desenraizamento das tradições não as privou dos meios de subsistência, pelo contrário, preparoulhes o caminho para que se expandissem, se renovassem, se enxertassem em novos contextos e se ancorassem em unidades espaciais muito além dos limites das interações face a face. Ou seja, a industrialização da cultura vem para expandir as formas de reprodução das obras artísticas, e consequentemente torná-las mais rentáveis.

Para o antropólogo Canclini, cultura e mercadoria se interpenetram. A difusão é um processo pelo qual os elementos, ou sistemas de cultura, se espalham de uma população para outra, permitindo acessibilidade a vários grupos de receptores. Ela está ligada à tradição na medida em que a cultura material passa de um grupo para outro. Entretanto, a tradição opera em termos de tempo, enquanto a difusão opera em termos de espaço. Dentro destes dois marcadores opera a música gauchesca, facilitando uma maior abertura a outros públicos e com isso transmitindo elementos tradicionais.

O espaço consolidado na mídia para a música gauchesca refere-se mais especificadamente às composições e aos artistas que atuem sob o estereótipo do gaúcho idealizado e construído no cenário mercadológico no decorrer dos anos. O próximo texto tratará sobre estas questões estéticas, a partir das falas de alguns músicos e intérpretes que afirmam que seus trabalhos devem enquadrar-se em uma estética sonora predominante para serem recebidas pelo público consumidor.
Até lá!

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