segunda-feira, 14 de julho de 2014

A indústria da música gauchesca (Parte I): o (in) sustentável mercado fonográfico regional

Há mais de um século a música sul rio-grandense movimenta a indústria fonográfica do país, principalmente nos limites geográficos do estado. No entanto, parece que até hoje as questões mercadológicas, envoltas em ideologias sobre o verdadeiro gauchismo, ainda não estão bem resolvidas. Com a finalidade de trazer à tona a discussão, este será o primeiro de uma série de quatro textos que tratarão do tema e suas implicações, abordando desde as primeiras gravações de música gauchesca no estado, as transformações estéticas, até as novas formas de divulgação e produção disponíveis hoje em dia.

Inicialmente, abordar sobre a indústria da música regional é mais complexo do que aparenta. Percebe-se ainda a falta de uma maturidade fundamental para a discussão do assunto, muitas vezes por parte dos músicos. Persiste a ideia da classe em geral que ganhar dinheiro é algo ruim, como se isto fosse diminuir a atividade artística ou até mesmo excluir ela de qualquer mérito estético. Esta é uma controvérsia antiga e não exclusiva da música. O problema desta tensão entre cultura de consumo e arte é muito bem representada por Simon Frith quando aborda as diferenças entre identificar os entendimentos das produções artísticas como diversão, que seria algo momentâneo e trivial, em contraponto à arte, que seria entendida como algo sério, transcendental e profundo.

As origens deste debate estão nos textos fundadores da Escola de Frankfurt, quando foi cunhado o termo Indústria Cultural em uma analogia apocalíptica da sociedade moderna. Os problemas desta abordagem estão em acreditar que a reprodução iria destruir a áurea estética de uma obra. Porém, como sabemos, não foi impossibilitado que trabalhos de qualidade fossem feitos com a passagem do tempo, pois basta lembrar que boa parte destas críticas tinham como alvo principal, no campo da música, o jazz – que atualmente é considerado um dos gêneros mais refinados.

Diferente do que se pode imaginar em um primeiro momento, as produções de música gauchesca obtiveram um sucesso considerável no decorrer do tempo, ultrapassaram as fronteiras do estado e alcançaram um número de vendas impressionante em relação às estatísticas atuais. As primeiras gravações do gênero surgiram a partir de 1911, realizadas nas gravadoras Casa Hartlieb e Casa Elétrica, ambas em Porto Alegre. Juntas, estima-se que estas empresas tenham lançado cerca de mil registros, dentre os quais estão os chotes Pisou-me no poncho e Está de tirar lixiguana gravados em 1913, por Lúcio de Souza, em solo de acordeom. Segundo o historiador Francisco Cougo, não há comprovação mas estas podem ter sido as primeiras gravações da música gauchesca.

Estas, foram lançadas na mesma época em que Moysés Mandadori, o chamado Cavaleiro Moysé, editou seus cerca de 60 registros, todos ao som de acordeom. Esta fase embrionária da fonografia profissional do Rio Grande do Sul deixou documentados os ritmos que pouco tempo depois seriam elevados à condição de “típicos” da música sulina, especialmente a polca, a trova e o chote – nenhum deles originário do Rio Grande do Sul, mas todos com características adaptadas ao cenário local. 


Depoimento de Moisés Mondadori onde conta sobre as gravações efetuadas na década de 1910 em Porto Alegre e sobre a gravação da música Boi Barroso, em disco gravado em 1976, uma coletânea com músicas do sul, onde também participou a cantora Elis Regina. (Reparem o arranjo e a instrumentação desta versão de Boi Barroso, que começa no vídeo em 2:25!!!)

Com o fechamento da gravadora Casa Elétrica, suplantada pela conjuntura econômica desfavorável do final da Primeira Guerra Mundial, no ano de 1924, a incipiente música gauchesca passou a ocupar um espaço marginal nos anos 20. Segundo Cougo, este quadro só mudou com o aparecimento das rádios Gaúcha (1927) e Farroupilha (1935), que criaram espaços de difusão do gênero regional, especialmente o programa Campereadas (1935), apresentado por Lauro Rodrigues. Neste mesmo contexto, surge a Dupla Campeira (Osvaldinho e Zé Bernardes), Conjunto Farroupilha, Os Gaudérios, Honeyde e Adelar Bertussi, já sendo por esses demonstradas as diferentes formas e interpretações de fazer “música gaúcha”.

Eis que chega o momento em que os registros fonográficos do gênero alcançam vendagens surpreendentes! Além do regionalista Pedro Raymundo, que obteve sucesso fora do estado, sendo músico contratado em 1943 pela Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, é surpreendente o número de vendagens de discos do cantor Teixeirinha. Há estatísticas que o cantor teria vendido em torno de 80 milhões de discos em 25 anos de carreira. Quando seu primeiro sucesso, a autobiográfica Coração de luto, chegou ao topo dos rankings de vendagem, a gravadora Chantecler precisou aumentar a produção para atender à demanda. Anos mais tarde, em 1977, o Coojornal noticiou que as empresas do artista faturavam 90 cruzeiros (cerca de 17 reais) a cada três segundos.


Teixeirinha - Coração de Luto (1961)


Diversas transformações estéticas ocorreram a partir de então nas músicas do segmento gauchesco, e certamente as mais significativas foram o movimento dos Festivais Nativistas surgido em 1971 e a Tchê Music, que despontou na década de 1990, trazendo uma nova configuração no cenário musical do Rio Grande do Sul (estes temas serão tratados mais minuciosamente nos próximos textos). Atualmente a discussão acerca da cultura regional foi motivada pelas transformações ocorridas na indústria cultural, intensificadas devido à inúmeras mudanças advindas dos meios digitais, configurando uma nova conjuntura de mercado. Produto deste processo, a música regional gaúcha chega no momento em que o produto musical é divulgado e consumido também através da internet.

Passado tanto tempo e ocorridas diversas transformações na música gauchesca já poderíamos imaginar que temos atualmente um mercado estabelecido e que as questões que envolvem o fato de "representar-se gaúcho" no mercado fonográfico estariam sazonadas, certo? Pois, como assunto do próximo ensaio será exposto o relato de alguns artistas de diferentes segmentos sobre a música gauchesca trazendo suas opiniões no que implica ser regional e/ou comercial.

Até breve!

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